ções que precisam ser examinadas, em face daquilo que já atingimos, e em face daquilo que a nossa Constituição promete.
É claro que os brasileiros conquistaram direitos inalienáveis e direitos à informação como em nenhum Estado soberano; é claro que transformaram o seu padrão de consumo, mas continuam carentes da falta de pudor e da correção política dos seus representantes. Isto, talvez, seja um defeito de fábrica, não somente dos políticos, mas também do povo, com o seu jeito malandro de ser, de extorquir a fiscalização e de querer impor a sua egolatria e as heranças da escravidão e do personalismo, com as quais a nação foi edificada.
Raimundo Faoro, Rui Barbosa, Paulo Bonavides e outros pensadores da nossa formação social e da nossa vida política, sempre recortada pelas suas crises, já refletiram acerca do caráter nacional brasileiro e mostraram que o Brasil é produto de uma intermitência de abalos institucionais que primam pelo personalismo e pela leniência.
A corrupção, entre nós, se aproxima de uma política de desmonte da Constituição e das suas regras e princípios. Contudo, apesar de ser o cancro da nação ou a alegoria de muitas eutanásias ou lixo do nosso esquecimento, ela precisa ser combatida de frente, com as armas da Constituição e da coragem, já empilhadas em todas esquinas do nosso território. As profecias constitucionais do juiz Sérgio Moro, feitas, ainda, na época do mensalão, começaram, de último, a germinar no país, e nelas já estava indicado que a corrupção não tem cores ideológicas de qualquer natureza, pois tanto a direita quanto a esquerda são nefandas, quando não envolvidas com os princípios políticos, acrescentando-se aqui que o ideal político mais seguro é a terceira margem, por onde escorre a aflição que se desloca da periferia contra a perversão das elites.
Mas, no Brasil, aqueles que conduzem a política institucional e partidária estão cegos e caminham pelo centro do poder com os olhos vendados: uns, espancando os fantasmas com os quais conviveram no passado; outros, recusando-se a olhar o futuro, ou com o receio de vender o pouco que lhes resta da sua consciência. O espírito doloso da política sempre foi um veneno letárgico para o povo, desde a sistematização de Aristóteles até as estratégias de conquista e manutenção do poder, que fluem da obra de Maquiavel. No Brasil, contudo, este elemento infeccioso nos parece ainda mais sofisticado, porque recheado de componentes desumanos e porque produto da falta de escolas para a liberdade.
76 Dimas Macedo