A democracia sob ataque | Page 31

trabalhador a permanecer por mais anos no emprego, dificultando assim a abertura de novas vagas e o acesso dos mais jovens ao mercado de trabalho.
Seja como for, o fato é que a fixação de idades mínimas precisa ser feita com cautela e precaução, pois afeta a expectativa das pessoas. Não pode ser simplesmente enfiada pela goela da população. A fixação do espaçamento ideal e da gradação mais adequada é difícil de ser estabelecida, o que dramatiza ainda mais a discussão, especialmente quando se tem um quadro recessivo e crise fiscal.
Passa-se o mesmo com o tempo de contribuição. A proposta governamental estabelece que o trabalhador terá de contribuir por 25 anos para ter acesso a 76 % do benefício, mas a contribuição precisará ser feita durante 49 anos para que o benefício seja recebido integralmente. É evidentemente um exagero e uma exigência obscena. O processamento parlamentar da proposta deveria garantir a correção disso.
Há muitos cálculos, números e projeções na mesa. Alguém deveria buscar organizar minimamente tudo isso, até para que se facilite o entendimento da população. Estatísticas confiáveis dão conta de que o envelhecimento populacional irá se acelerar muito nas próximas décadas. Deverá crescer cerca de 50 % nos 10 anos que temos pela frente e por volta de 2050 será 2,5 vezes maior que a atual. É uma mudança imponente, uma espécie de canto do cisne daquele“ país de jovens” que exibia ao mundo 10 idosos para cada 100 trabalhadores ativos. Em 2050, esta proporção será de 45 para cada 100. Com mais idosos nesta proporção, há que se descobrir como obter recursos para que se paguem aposentadorias e pensões.
Isso significa que nenhuma reforma previdenciária poderá se completar sem que seja combinada com uma alteração no sistema tributário. Mais gente terá de pagar impostos e os mais ricos terão de ser expressivamente tributados. O“ pacto” que sustenta a sociedade precisará ser reformulado, novos consensos precisarão ser criados, toda uma pedagogia terá de ser posta em movimento para que se forme um novo entendimento a respeito.
É uma discussão cuja resolução depende categoricamente da definição das prioridades nacionais, tarefa que deveria ser estratégica para os democratas.
O que a sociedade brasileira considera mais relevante? A título de exemplo, pode-se contrapor a Previdência às políticas de
Dilemas e desafios da política democrática
29