A democracia sob ataque | Page 24

com um amplo mas instável apoio parlamentar, solto no espaço sem ser socialmente controlado e sem sofrer a pressão crítica e organizada do campo democrático.
Com uma equipe de poucos que podem fazer a diferença, o barco de Temer enfrenta um mar revolto e turbulento, em cujas praias repousam uma economia estagnada, milhões de desempregados e uma sociedade alvoroçada. É difícil vislumbrar como conseguirá fazer a travessia.
A chamada classe política, que deveria mostrar racionalidade superior e capacidade de interpretar os sinais do tempo, não o ajuda e ameaça destroçá-lo de uma só vez ou devorá-lo aos poucos, pelas bordas. O próprio presidente, figura de proa dessa classe, parece perdido, sem saber que caminho seguir ou que tom dar ao coro dos insaciáveis.
Os déficits são enormes. Falta convicção social de que a representação democrática é um valor. Faltam partidos com musculatura para agregar grupos e pessoas em torno de programas factíveis de reforma. Faltam boas escolas e um bom sistema educacional, regulação democrática dos meios de comunicação e redução da publicidade manipuladora para que se dissemine capacidade crítica entre os cidadãos. É um vazio cívico que tem sido preenchido por formas light ou hard de autoritarismo e por postulações próximas da barbárie, da intolerância e da grosseria preconceituosa.
A desunião e a baixa capacidade operacional dos democratas deixam o governo Temer sem um contraponto produtivo e não contribuem para que a sociedade compreenda melhor a situação do país e se mobilize para lutar por seus interesses. O vozerio indignado que se localiza nas redes sociais gera a sensação de que há uma intensa mobilização oposicionista, mas pouca coisa de fato acontece. A cidadania bate cabeças, sem conseguir se projetar ativamente no cenário. O campo democrático se move pouco e quase nada propõe, sem nem sequer se preocupar com o que vem pela frente, a começar de 2018.
Os gargalos do país deixam assim de ser considerados de uma perspectiva democrática consistente. A agenda de reformas posta na mesa pelo governo federal evolui sem conhecer a crítica dos democratas, que não se define pela recusa e pela contraposição, mas pela apresentação de alternativas.
22 Marco Aurélio Nogueira