A democracia sob ataque | страница 23

típica das classes médias, mas que também se afasta da vida real, sem conseguir ou se preocupar em agir sobre ela.
Como observou com precisão Luiz Werneck Vianna, esta mídia eletrônica empoderada“ é composta de uma juventude, com uma preponderância feminina muito grande, que vem se apropriando desse espaço de forma muito eficiente e, eu diria, sem treinamento e sem conhecimento do país, e sem educação política para dar conta desse turbilhão que se tornou a vida política brasileira. De modo que o registro que essa mídia alternativa faz é mais de natureza ético-moral do que propriamente política: não tem análise, tem juízo de valor. Isso faz com que a temperatura apresente indicadores muito altos, que não necessariamente dizem respeito à doença do paciente(...). Os dois registros não combinam: o termômetro, nessas mídias, está indicando uma temperatura muito alta, enquanto a vida transcorre no seu fluxo”.( IHU-On line, < http:// gilvanmelo. blogspot. com. br / 2017 / 03 / entrevista-luiz-werneck-vianna. html >).
Um dos melhores indicadores da confusão em que estamos metidos é a profusão de convicções extremadas que aparecem nas manifestações orais e escritas dos ativistas, que se distribuem da esquerda à direita. De tanto ouvirem as proclamas, até mesmo as pessoas comuns, os pacatos cidadãos, acabam seguindo as vozes e as repetindo. Elas demonstram o peso de certas obsessões desviantes, que nos afastam do núcleo problemático da vida e disseminam ilusões e fantasias contraproducentes, que imobilizam sob a aparência de uma hiper-mobilização.
Revelam, por um lado, a impaciência política e a baixa densidade ética das pessoas. Por outro, indicam a má formação política de setores importantes da comunidade, que aplaudem e seguem, com extrema facilidade, lemas maximalistas e slogans esquemáticos que funcionam como bloqueadores da inteligência reflexiva.
Tais manifestações mostram como, de fato, mudou o“ algoritmo da política”( expressão de FHC) e o quanto ingressamos em outra época social, na qual os hábitos, as narrativas e os estilos de antes parecem não funcionar, ou o fazem com muita dificuldade. A insatisfação com o léxico e o gestual do passado impulsiona uma entrega cega a atitudes que anunciariam o futuro mas que somente são, na verdade, uma confissão de impotência.
Tem-se então um quadro assombroso: um governo ambíguo, com baixa densidade técnica e pouca legitimidade buscando realizar um programa de ajuste fiscal e reformas complicadas,
Dilemas e desafios da política democrática
21