A democracia sob ataque | Página 197

humanidade. Herda do cristianismo o sonho de um futuro libertador em que os homens haverão de amar uns aos outros. Herda do Renascimento a ambição de pensar o mundo racionalmente. Herda da Prússia a certeza de que a filosofia é a primeira das ciências e de que o Estado é o coração, ameaçador, de todo o poder. Herda da França a convicção de que a Revolução é a condição emancipadora dos povos. Herda da Inglaterra a paixão pela democracia, o empirismo e a economia política. Herda, enfim, da Europa a paixão do universal e da liberdade.
É por isso que Attali destaca que Karl iniciou e desenvolveu o método de pensar o mundo:
[...] como um conjunto ao mesmo tempo político, econômico, científico e filosófico(...) [ ao ] apresentar uma leitura global do real(...) [ e ] ver o real apenas na história dos homens, e não mais no reino de Deus(...). Manifestando uma incrível voracidade de conhecimento em todas as disciplinas, em todas as línguas, ele se empenha até o último fôlego em abarcar a totalidade do mundo e das molas propulsoras da liberdade humana. Ele é o espírito do mundo.
Em síntese, Karl procurou seguir aquilo que Hegel recomendava a todos quantos desejam abraçar o conhecimento científico, qual seja: seguir o desenvolvimento enciclopédico da totalidade da filosofia assim como o das suas disciplinas particulares. 3
Mesmo o cérebro humano mais universal não está imune ao mundo dos humanos. Ao visitar toda a árvore genealógica de Karl, fica-se sabendo que a família de seus ancestrais remonta ao início do século XV; que seu nome Marx nada mais foi do que a expressão de um erro de grafia feito pelo cartório de registro( o certo seria Marc); aos oito anos de idade, conhece Jenny von Westphalen, de 12 anos, sua futura esposa que, ao casarem-se, vê seu Karl, então com 25 anos, levar e estudar, em plena Lua de Mel, 45 livros( Hegel, Rousseau, Montesquieu, Maquiavel, Diderot, Feuerbach, dentre outros) e ainda o vê trabalhar em dois textos: Crítica da Filosofia do Direito de Hegel e a Questão Judaica.
Antes de completar 30 anos, é o autor do livro não religioso mais lido da história do mundo: O Manifesto do Partido Comunista. Attali narra com riqueza todas as dificuldades pessoais, familiares e intelectuais enfrentadas durante sua redação.
3 Hegel, G. W. F. Estética: a ideia e o ideal; Estética: o belo artístico ou o ideal. Tradução de Orlando Vitorino. 5. ed., p. 7 São Paulo: Nova Cultura, 1991 – Col. Os Pensadores.
Karl Marx ou o Espírito do Mundo
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