A democracia sob ataque | Page 195

Karl Marx ou o Espírito do Mundo
Eduardo Rocha
Nenhum autor teve mais leitores, nenhum revolucionário suscitou mais esperanças, nenhum ideólogo mereceu mais exegeses, e, à parte alguns fundadores de religiões, nenhum homem exerceu no mundo uma influência comparável à que Karl Marx teve no século XX.

Assim começa uma das mais belas biografias de Karl Heirinch Mordechai Marx; sim, este era o nome completo de Karl Marx. É uma obra que surpreende pelas descrições minuciosas sobre a sua trágica e heroica trajetória pessoal, familiar, amorosa, profissional, política, intelectual, teórica e revolucionária. Foi escrita por um economista argelino-francês, ex-conselheiro do presidente francês François Miterrand( 1981-1990).

É sabido que toneladas de páginas carregadas de tintas grossas já foram escritas por diversos autores, inimigos e amigos, sobre a vida de Karl Marx, mas poucas sobre Karl Heirinch Mordechai Marx, ou simplesmente Karl, como é chamado por Attali durante todo o livro. E será assim, para respeitar o biógrafo, que chamaremos Marx.
Nas outras biografias há de tudo: amor e ódio, admiração e aversão, verdades e mentiras, filiação e refutação, vivificação e dogmatização, progressão e petrificação, absolvições e condenações, enfim, contradições a antagonismos. Isso porque a produção pluridimensional, multifacetada, universal, global, gestada e manifestada no ímpeto intelectual incontrolável de abarcar a totalidade do mundo real, concreto, material, existente e também de abarcar a totalidade do conhecimento humano e até mesmo em desvendar o desconhecimento humano sobre o mundo radicalmente humano e desumano como tal ele o é, ele o fez como se não houvesse o amanhã.
Karl abalou toda a ordem sociopolítica existente de sua época, deu compreensibilidade à história e estremeceu o século XIX, atravessou o XX e nada indica que o XXI ainda não o tenha como a matriz de toda uma tradição teórica, que precisa ser como Karl, principalmente dominando e desenvolvendo o método – tarefa extremamente árdua, pois terá de ultrapassar aquilo que se pode
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