diga uma coisa, você ainda mora nesse planeta?” Todos riram livremente na República democrática de Sabiaguaba.
A opinião dele era sempre positiva e condescendente sobre os companheiros de luta, sempre enxergava em cada um uma atitude digna de respeito e valoração. Uma vez, ele discorria sobre Cândido Feitosa, companheiro exemplar que entrou no Partidão em 1947( ano do meu nascimento) e participou com coragem e inteligência de vários movimentos sociais e políticos, como O Petróleo é Nosso. Alguém perguntou,“ esse Candido é aquele de Maracanaú, que sempre está distribuindo panfletos? Ele não tem muito juízo não”... E Tarcísio finalizou o assunto dizendo com a sabedoria de sempre:“ Esse negócio de juízo é outra história. E que eu saiba nenhum partido político exige atestado de sanidade mental para admitir um militante. Eu mesmo nunca me submeti a nenhum exame e continuo distribuindo panfleto e jornalzinho.”
Este querido companheiro foi um exemplo patente de simplicidade, de coragem e de determinação ideológica. Sua experiência histórica, todavia, ele a minimizava contando minúcias ou fatos anedóticos, tantos de sua vida revolucionária e heroica. Foi preso, maltratado, torturado, mas sempre entendeu esses episódios como aspectos singulares da luta social e política a que se vinculou com coração e alma desde os onze anos de idade.
O senso de justiça e de alegria fácil acompanhou-o até na prisão na Ilha de Fernando de Noronha. Ele, que sempre foi um crítico da ditadura militar, elogiou com razão o então Governador da Ilha, por atender às reivindicações dos presos políticos, de melhorar a alimentação, limpar o presídio e instalar uma Biblioteca, cujo maior frequentador diário era o próprio Tarcísio.
Ele foi o maior advogado trabalhista do Ceará. Em um determinado período( 1970-1990) – seu escritório atuava em cerca de 50 % de todos os processos trabalhistas do Estado.
Em 1976, fui candidato a vereador de Fortaleza pelo MDB. Obtive 3.186 votos, mas figurei na 4 ª suplência. A Universidade de Fortaleza( Unifor) me demitiu e ele foi meu advogado. Eu já era bacharel em Direito e inscrito naquele ano na OAB-CE. Nada conhecia do Direito Trabalhista e passei a procuração devida ao grande causídico e amigo. O resultado, já no TRT, foi positivo, pois fizemos um bom acordo. Quando falei sobre honorários, ele me disse com certa solenidade:“ Esta é uma homenagem minha e dos companheiros a você. Continue do mesmo jeito.” Como insisti na conversa dos honorários, ele me disse:“ Pague o que quiser, quando quiser e se quiser.”
170 Oscar d ´ Alva e Souza Filho