Depois, ele me mandou algumas causas de interesse dos companheiros ou das famílias deles, como foi um habeas corpus preventivo em favor do filho de Pedro Jerônimo, assassinado numa masmorra da ditadura em Fortaleza. Passei a visitar o escritório do Tarcísio com frequência e testemunhei muitos casos e lições. O movimento de clientes era imenso, cerca de 40 a 60 pessoas por tarde, pois pela manhã ele fazia audiências nas Juntas de Conciliação do Fórum Autran Nunes.
Ele politizou sua conduta moral dizendo que a ditadura tinha procurado uma falha no seu relacionamento profissional com a classe trabalhadora,“ mas ninguém segura na minha munheca”, dizia ele. Na verdade, ele só advogava em prol da classe trabalhadora.
Tenho a imensa felicidade de ter sido um bom amigo dele. Quando o conheci, eu tinha 18 anos de idade. Quantas vezes estive com ele, aprendendo sempre com sua coragem, sua humildade, sua inteligência, sua tolerância, seu“ machismo-leninismo”, que era proclamado em tom de brincadeira e logo em seguida refutado por uma reflexão honesta.
Um dos últimos comentários sóbrios a mim feitos por ele deu-se a propósito do posicionamento do Papa Francisco sobre a liberdade de amar dos gays e lésbicas, quando o Papa falou:“ se alguém diz que ama a Deus ou a outro ser humano, quem sou eu para dizer algo em contrário. O amor deve sempre ser abençoado e não o ódio”. Tarcísio disse-me com os olhos marejados:“ Nós erramos muito e o Partido também. Este Papa é mais evoluído do que qualquer marxista que a gente conheça, não se engane não.”
Nas conversas inúmeras que manteve com nossos companheiros e amigos, Tarcísio nunca desconstruiu a conduta política ou moral de um companheiro. Perseguido, preso várias vezes e torturado pela Ditadura, nunca ostentou a posição de herói que ele legitimamente conquistou com sangue, suor, lágrimas( suas, de sua família, companheiras, filhos, netos e amigos): ao longo de sua existência militante pela paz, pela democracia, pelo socialismo e pelo ideal comunista.
No dia 19 de junho de 2016, estivemos com o Cândido Feitosa, Pedro Albuquerque, Galba Gomes e Inácio de Almeida, numa última visita ao nosso querido amigo-irmão que já se nos apresentava bem mais calado, pensamento mais lento ou perdido na nossa incompreensão médica. Os amigos referidos falavam avidamente sobre a política brasileira: Todos pro impeachment. Eu estava sentado ao lado do Tarcísio que apenas ouvia sem a parti-
Lembrando Tarcísio Leitão
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