A democracia sob ataque | Page 154

política da cúpula partidária. Em um período de maior liberdade de atuação comunista na imprensa, novas ideias foram discutidas e( re) formuladas. Tratava-se dos anos JK, talvez o único do período democrático de 1946-1964 que tenha conseguido enfrentar crises políticas sem abalos profundos. Foi nessa conjuntura que o PCB inaugurou sua“ nova política”, quando absorveu muitos dos elementos presentes nos debates anteriores, salvaguardando sempre o poder de decisão por parte de seus líderes. A solução a ser adotada deveria estar na formação de uma“ frente única” alinhavada a tais pressupostos. Dentro dessa conjuntura, o PCB divulgaria um dos documentos mais importantes de sua história: A Declaração sobre a política do Partido Comunista Brasileiro, divulgada em março de 1958. Logo em sua apresentação, a Declaração reconhece que as discussões advindas do XX Congresso do PCUS motivaram a formulação do documento. O texto fora dividido em oito seções: I) O processo de desenvolvimento econômico do Brasil; II) A democratização da vida política nacional; III) Crescem no mundo inteiro as forças da paz, da democracia e do socialismo; IV) Aprofunda-se a contradição entre a nação brasileira e o imperialismo norte-americano; V) A frente única e a luta por um governo nacionalista e democrático; VI) O caminho pacífico da revolução brasileira; VIII) Fortalecer o Partido para a aplicação de uma nova política. Compreende-se, portanto, que a“ nova política” idealizada na“ Declaração de Março”, muito distante do sectarismo e do insurrecionalismo dos anos anteriores, impôs uma lógica reformista na estratégia do PCB, que transformou sua concepção revolucionária. Em termos conceituais e históricos dar-se-ia início ao chamado pecebismo contemporâneo – termo este cunhado por Raimundo Santos.
Diante de tais transformações, a concepção estratégica do PCCh, alicerçada historicamente numa política de alianças, tendo como identidade sua participação nas Frentes Populares, adequouse aos novos tempos antes mesmo das consequências advindas com o XX Congresso do PCUS. Contudo, atentos às transformações no Movimento Comunista Internacional, os comunistas chilenos foram muito eficazes, quando souberam relacionar sua estratégia interna com as“ vias nacionais” inseridas dentro de uma conjuntura de“ coexistência pacifica”. E foi nesse instante que, pela primeira vez, o PCCh adotaria a via pacífica como política oficial do partido. Contudo, o fato de a via pacífica ter adentrado ao horizonte estratégico oficial do PCCh não significou uma transformação em sua cultura política e nem deu ensejo a uma transformação similar ao que analisamos em relação ao pecebismo contemporâneo. No
152 Victor Augusto Ramos Missiato