A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 91
Para a superação da condição de vítima
dizia Paulo Freire: “movo-me na esperança enquanto luto e, se
luto com esperança, espero” (1975, p. 97). A esperança se radica
na condição antropológica fundamental do ser sujeito que é a
sua vocação histórica e ontológica à humanização, ao ser mais, à
vida livre, que se constrói pela práxis libertária do diálogo. 13 Para
Freire, “se o diálogo é o encontro dos homens [e das mulheres]
para Ser Mais, não pode fazer-se na desesperança. Se os sujei-
tos do diálogo nada esperam do seu quefazer já não pode haver
diálogo. O seu encontro é vazio e estéril. É burocrático e fasti-
dioso” (1975, p. 97). A esperança é uma construção que mantém
o sujeito em ação, que o mobiliza para seguir dialogando, tendo
em vista a superação da situação de opressão e de vitimização.
É o diálogo que faz com que o processo de organização não se
burocratize, por um lado, e nem se torne fastidioso, por outro,
ou seja, não corra o risco de ficar vazio e estéril. Freire entende a
organização como elemento fundamental da “ação cultural dia-
lógica”. Ela tem força para fazer frente à manipulação, à divisão
e à invasão que são produzidas pela “ação cultural antidialógi-
ca” e que se presta a manter os oprimidos na condição em que
se encontram. Ela também é desdobramento da unidade como
exigência da ação dialógica (Freire, 1975, p. 200). A organiza-
ção não é “justaposição de indivíduos gregarizados”, porque ela
precisa de liderança, disciplina, objetivos, entre outros aspectos,
todos componentes que colaborem para que os oprimidos se li-
bertem não como “coisas”, mas como seres humanos (1975, p.
209-210). Segundo Freire, a construção de uma “nova síntese cul-
13 “A luta pela humanização, pelo trabalho livre, pela desalienação, pela afirmação dos
homens como pessoas, como ‘seres para si’, não teria significação. Esta somente é
possível porque a desumanização, mesmo que um fato concreto na história, não
é, porém, destino dado, mas resultado de uma ‘ordem’ injusta que gera a violência
dos opressores e, esta, o ser menos. A violência dos opressores que os faz também
desumanizados, não instaura uma outra vocação – a do ser menos. Como distorção
do ser mais, o ser menos leva os oprimidos, cedo ou tarde, a lutar contra quem os
fez menos. E esta luta somente tem sentido quando os oprimidos, ao buscar recu-
perar sua humanidade, que é uma forma de criá-la, não se sentem idealistamente
opressores, nem se tornam, de fato, opressores dos opressores, mas restauradores da
humanidade em ambos. E aí está a grande tarefa humanista e histórica dos oprimi-
dos – libertar-se a si e aos opressores” (Freire, 1975, p. 30-31).
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