A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 90
Para a superação da condição de vítima
de transformar a realidade. Reyes Mate diz que Benjamin “[...] lo-
caliza o sujeito da história ao lado dos oprimidos, mas com uma
precisão notável: na medida em que lutam. Não se é sujeito da
história por pertencer a uma classe, mas porque se luta” (2011,
p. 259). 12 A luta é condição constitutiva da consciência. A cons-
cientização realiza-se no processo de compromisso com a reali-
dade que tece tensionalmente, através da ação, o modo de ser da
consciência do sujeito. O sujeito e sua consciência são, em grande
parte, resultados de sua ação e, no caso das vítimas, do seu com-
promisso pela superação dessa condição. Abre-se, assim, outra
condição, que é a da organização e da luta como processo his-
tórico de enfrentamento transformador da realidade vitimária.
Benjamin diz que “o sujeito do conhecimento histórico é a
própria classe oprimida, a classe combatente” (Teses, XII, 2005,
p. 108). Isso o faz defender que a consciência que movimenta a
ação é, acima de tudo, prática de luta, experiência ativa, uma
construção da própria classe oprimida no processo de luta contra
a opressão. O “freio de emergência” na locomotiva do progres-
so é feito pelos próprios oprimidos que se alimentam da força
de todos aqueles que, mesmo derrotados na história (os “ances-
trais escravizados”) acumularam para o processo de superação
da opressão. O “instante de perigo” que faz “explodir o contínuo
da história” pela afirmação da “tradição dos oprimidos”, como
“reivindicação”, “irrupção” de um “tempo-de-agora”, não é um
ato heroico, mas é um ato de resistência coletiva da “classe re-
volucionária”, dos vencidos, das vítimas, contra a permanência
da barbárie, diz Benjamin (Teses, XV, 2005, p. 123). É a “clas-
se oprimida”, a “classe combatente”, que se constitui sujeito da
resistência à opressão. Isso para dizer que, sem um processo de
organização da resistência, não se potenciará os oprimidos para
que façam frente à barbárie.
A luta se afirma como processo que tem na esperança o ali-
mento ético e político. Luta e esperança se retroalimentam, como
12 Reyes Mate também lembra que “Os pobres, os que sofrem, são sujeitos da história
porque, de acordo com a lógica desta tese [referindo-se à Tese XII de Benjamin],
são os que podem conhecer melhor