A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 89
Para a superação da condição de vítima
a luta por sua libertação” (Freire, 1975, p. 56). Podem variar as
condições históricas, as formas de sua efetivação, o que não pode
deixar de ocorrer é o diálogo ou, pior, sua substituição pelo “anti-
-diálogo” (a sloganização, os comunicados, o depósito, o dirigis-
mo) (1975, p. 56-57). Mesmo nas piores condições, quando tudo
parece negar a possibilidade do diálogo, ainda assim há uma al-
ternativa: nem que seja ao menos “dialogar sobre a negação do
próprio diálogo” (1975, p. 71).
O ato dialógico é um ato de amor à vida: é “exigência radical
de toda revolução autêntica” (Freire, 1975, p. 149). O diálogo faz
experienciar um “ato amoroso” 11 que é ato constitutivo da subje-
tividade que só se afirma pela superação da condição de opressão
- que implica que já não exista nem o opressor e nem o oprimido.
Não há subjetividade em condições desumanas. É a práxis dia-
lógica de libertação que abre as condições para que o sujeito se
realize em comunhão dialógica com o outro. Desse modo, Paulo
Freire agrega um aspecto fundamental ao ser sujeito em relação,
que é a dimensão dialógica, comunicativa, cooperativa, que se dá
como pronúncia do mundo que é, a rigor, compromisso com a li-
berdade pela práxis. Para ser mais explícito: “o que defende a teo-
ria dialógica da ação” é que a denúncia do “regime que segrega
esta injustiça e engendra esta miséria” seja feita com suas vítimas
a fim de “buscar a libertação dos homens em co-laboração com
eles” (Freire, 1975, p. 202).
A terceira condição é a organização e luta das próprias
vítimas e de seus aliados, visto serem elas as que criarão
novas realidades não vitimárias
A organização e a luta das próprias vítimas contra as condi-
ções de vitimização são fundamentais para abrir à possibilidade
11 “Não há diálogo, porém, se não há um profundo amor ao mundo e aos homens. Não
é possível a pronúncia do mundo, que é um ato de criação e recriação, se não há amor
que a infunda” (Freire, 1975, p. 93-94).
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