A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 72

O reconhecimento seria suficiente para pensarmos os direitos humanos ? do próprio pensamento. É neste sentido que a questão cultural surge como um componente importante no debate sobre reco- nhecimento, entendendo cultura não só como “acervo espiritual que o grupo brinda a cada um e que é aportado pela tradição, mas como baluarte simbólico no qual o sujeito pode se refugiar para defender a significação de sua existência 2 “ (Kusch, 1978, p. 14). A Cultura como defesa da existência não significaria pensá- -la como algo estático, mas em movimento. O Reconhecimen- to não é apenas uma resposta (que para Fornet é insuficiente) às constantes desigualdades que vivemos, mas é, antes de tudo, um problema. As teorias do reconhecimento revelam o fracasso de uma racionalidade que, embora nos forneça discursos sobre a justiça, foi incapaz de viabilizar um mundo mais justo. Basta pensarmos como o projeto moderno, permeado pelas bandeiras de igualdade, liberdade e solidariedade, iniciou um processo de colonização violento destituindo de humanidade uma parte do planeta. Como um projeto solidário justificou a escravidão? Para tanto, Fornet assinala a importância de fazermos o de- bate sobre o reconhecimento partindo de um processo de recu- peração da memória da humanidade e da categoria de dignidade humana, pois as concepções ocidentais provocam este esqueci- mento. O filósofo destaca cinco pontos que mostram este movi- mento: 1. antropológico: a absolutização de uma concepção de huma- no (desconsideram-se outras concepções culturais de huma- nidade); 2. social: substituiu-se o ser humano de carne e osso (com sua história, rosto) pelo conceito jurídico de “cidadão”; 3. político: afirmação de uma sociedade de discursos e con- tratos (materializando uma percepção da experiência de- mocrática); 4. econômico: não se faz uma crítica profunda ao sistema eco- nômico neoliberal (como é possível pensarmos relações éti- 2 “[…] acervo espiritual que el grupo brinda a cada uno y que es aportado por la tra- dición, sino además es el baluarte simbólico en el cual uno se refugia para defender la significación de su existéncia”. 71 de 244