A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 73
O reconhecimento seria suficiente para pensarmos os direitos humanos ?
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cas, de manutenção da vida do Outro dentro de uma políti-
ca genocida ratificada pelo neoliberalismo?)
cultural: não é suficiente que a cultura do “outro” seja reco-
nhecida, necessita “fazer-se mundo e ser mundo” (Fornet-
-Betancurt, 2009, p. 69).
Dessa forma, percebemos no pensamento de Fornet a defesa
por um mundo próprio, em que o Outro não seja apenas tolera-
do, mas aceito decisivamente e este elemento é fundamental para
estarmos juntos. Com isso, afirma que modos de compreensão,
de governar, de fazer e pensar a política, a educação e a comuni-
cação possam contribuir significativamente em nossa maneira
de conviver e pensar o mundo. A experiência mesma de memória
que cada cultura carrega, seu universo simbólico, as diferentes
racionalidades podem trazer elementos importantes para o fu-
turo da própria humanidade. Noções sumak kawsay (kichwa)
e suma qamaña (aymara) traduzidas contemporaneamente por
Bem Viver têm penetrado o mundo ocidental, trazendo desafios
importantes para uma racionalidade que perdeu profundamente
a sua relação com a natureza, com o místico, com o simbólico.
Raimon Panikkar (1996), filósofo hindu, que tem uma im-
portância no pensamento de Fornet-Betancourt, problematiza
como diferentes culturas podem realizar os diálogos intercultu-
rais, que compreensões, linguagens serão necessárias para enten-
der o universo cultural do Outro; e mais, poder se comunicar
com ele. Reflexões como a perspectiva de pensar por símbolos
e não conceitos, a possibilidade de tradução, a importância do
silêncio, de outras vivencias e percepções do que seja humano
- são experiências que os povos ameríndios nos ensinam diante
de um esgotamento das repostas que a (pretensa) racionalidade
ocidental tem dado aos problemas da humanidade. Contudo, ao
pensarmos a necessidade de convivência com o Outro, percebe-
mos a importância de criarmos pontes, lugares comuns, em que
utopia não seria mais o não-lugar, mas o lugar possível de rela-
ção. Na tradição do ocidente acompanhamos o surgimento de
grandes narrativas como universais necessários. Fazer um mo-
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