A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 71
O reconhecimento seria suficiente para pensarmos os direitos humanos ?
produziu um pensar crítico sobre si mesma. Mais tarde, entra em
contato com a filosofia latino-americana, mais especificamente,
com a filosofia da libertação, do qual se torna um de seus prin-
cipais interlocutores. Aos poucos, começa a refletir sobre a insu-
ficiência da filosofia da libertação no que tange às questões cul-
turais, passando, então, a construir um debate profundo sobre a
interculturalidade vista como uma exigência ética e, desse modo,
a necessidade da elaboração de uma filosofia intercultural.
Projetos, todos eles, sem dúvida, fundamentais para o desenvolvi-
mento contextual da filosofia na América Latina, mas que não fazem
cargo, todavia, de que a diversidade cultural com que os confron-
ta a mesma contextualidade do continente, os desafia com a tarefa
prioritária de refazer a filosofia latino-americana desde o diálogo en-
tre as culturas que compõem a riqueza cultural da América Latina.
(Fornet-Betancourt, 2004, p. 94).
É desde esta perspectiva teórica que passa a tecer comen-
tários sobre a compreensão das políticas de reconhecimento,
portadoras de fundamentação centrada no contexto europeu.
Para Fornet (2009), o debate em torno do reconhecimento não
é apenas teórico, mas prático. Apresenta, com isto, uma com-
preensão sobre o sentido da teoria que nos impulsiona necessa-
riamente a ações, ou seja, de um pensamento engajado. Prefere,
então, em vez de falar em reconhecimento, falar de “dinâmicas
de reconhecimento”. A luta pelo reconhecimento é um processo
contínuo e não acabado – não é o fim em si, mas o processo mes-
mo, constante, cotidiano das relações atravessadas por muitas
contradições, negociações e lutas. Do mesmo modo, não basta
falarmos em liberdade, é necessário compreendermos os proces-
sos de libertação (já apontados na filosofia da libertação) como
também em colonialidade, ao invés de colonização (apontados
pelo pensamento decolonial). Reconhecimento, libe rdade e co-
lonização estão por demais ancorados em um projeto moderno,
construído desde uma realidade política europeia. Olhar para
o “outro” desde esta história nos exige refletirmos processos de
reconhecimento e libertação que passam pela descolonização
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