A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 68

O reconhecimento seria suficiente para pensarmos os direitos humanos ? da simples (sic) violência da imposição da norma sobre o sujeito, mas da norma nem sequer reconhecer o sujeito nos processos de interpelação, antes mesmo, portanto, da relação em que po- deria – ou não – dar-se o reconhecimento do outro. O não reco- nhecimento, nessa hipótese, é ainda mais duro, na medida em que implicaria em um julgamento imediato do sujeito e anterior à confrontação entre o particular e o universal que acontece na interpelação. A autora vale-se, nesse raciocínio, de uma inversão da dialé- tica hegeliana: não se trataria mais de perguntar “quem eu sou?”, mas sim “quem tu és?”. O “quem és tu?” é fundamental para a de- finição do “quem eu sou”. Temos uma dependência fundamental do outro, mas não somos como esse outro e tão pouco o reconhe- cimento pelos outros é o mesmo sempre, ao longo do tempo. O sujeito se definirá, portanto, pela narrativa que faz para o outro quando responde “quem és tu?”, nas cenas de interpelação. É esse narrar-se para o outro que permite ao sujeito conhecer a si mes- mo. No entanto, se o sujeito não for nem admitido como tal e não for nem sequer instado a narrar a si mesmo, é porque essa narra- tiva de si não é importante para o outro. Esse sujeito nem sequer é confrontado com o contato em que se estabeleceria, ou não, seu reconhecimento. Em outras palavras, esse sujeito não existe. A passagem a seguir ilustra a importância que a autora re- puta a esse momento anterior ao reconhecimento, vital para que ele possa, só então, entrar em discussão e suscitar uma questão moral propriamente dita: Não é possível fazer nenhum relato de mim mesma que, em certa medida, não se conforme às normas que governam o humanamente reconhecível ou negocie esses termos de alguma maneira [...]. É im- possível fazer um relato de si mesmo fora da estrutura de interpela- ção. (Butler, 2015, p. 51). São essas estruturas de interpelação que organizam as tro- cas vitais e imediatas entre os sujeitos. Portanto, é preciso, nas palavras da autora, reconhecer, antes de mais nada, os limites 67 de 244