A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 67

O reconhecimento seria suficiente para pensarmos os direitos humanos ? Judith Butler: é possível falar em uma violência ética? Judith Butler, filósofa estadunidense, traz contribuições im- portantes em seus últimos escritos sobre a problemática do reco- nhecimento. Em sua obra Relatar a si mesmo: crítica da violência ética, a pensadora revisa a noção de violência ética em Adorno. Esta se assenta na presença de um ethos anacrônico que se faz presente, colocando-se como uma universalidade que violenta as particularidades. Butler argumenta que a universalidade não é violenta por natureza, mas pode vir a exercer violência, quando “deixa de responder à particularidade cultural e não reformula a si mesma em resposta às condições sociais e culturais que in- clui em seu escopo de aplicação” (Butler, 2015, p. 17). Reconhece, portanto, que há uma tensão entre sujeito e norma, ou entre par- ticular e universal. Esta primeira concepção de violência ética já permite pen- sar, por exemplo, que a Razão moderna se arroga essa universa- lidade e entra em paradoxo ao tentar expandir o seu escopo de atuação e violentar, desse modo, outras particularidades sociais e culturais. Esse tipo de raciocínio está, por exemplo, na base de uma resistência à colonialidade e nos parece plausível pensar que permite, em alguma medida, identificar as violações de direitos humanos tendo raiz nessa violência primária ou fundadora. Contudo, Butler vai adiante e se questiona que, talvez, a norma (o universal) e seus regimes de verdade (na perspectiva de Foucault) poderia decidir por antecipação quem se tornaria ou não sujeito digno de ser questionado por ela mesma, a norma. Ou seja, ela quer entender se a norma não pode influir na defi- nição mesma do sujeito antes de estar diante dela. Isso acontece nas cenas de interpelação, isto é, nas trocas imediatas e vitais que estão implicadas no viver e conviver. Em relação aos regimes de verdade, o reconhecimento estaria limitado a um conjunto de re- presentações, de formas de ser que previamente decidem como e a partir do que reconhecemos o Outro. Isso remeteria a discus- são sobre direitos humanos para um ponto anterior: não se trata 66 de 244