A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 64

O reconhecimento seria suficiente para pensarmos os direitos humanos ? rar um regime de terror, transformando as ideias e princípios filosóficos que a guiaram em algo abstrato demais, distante dos anseios do povo. É dessa forma, que Hegel chega ao que consi- dera o marco histórico em busca do espírito absoluto: o mundo germânico. O que Hegel nos apresenta a partir de sua leitura é a trajetó- ria de parte da humanidade para atingir a harmonia necessária entre liberdade subjetiva e liberdade objetiva. Ao fazer o traçado da história, Hegel afirma que os acontecimentos históricos são necessários para que pudéssemos chegar ao atual momento que vivemos. Precisamos, desde a sua leitura, admitir que seja neces- sário passarmos por certos momentos de crueldade, de violência para que tenhamos, mais adiante, uma consciência mais ampla de nosso próprio fazer histórico e de suas consequências. Somos parte de nossas condições históricas. Porém, não somos livres se agirmos conforme nossos desejos particulares ou externos a nós. O cumprimento das normas estabelecidas, o dever ser kantiano, já se coloca como um avanço, ao mostrar a potencialidade da razão em se tornar universal. Mas, o impe- rativo categórico “aja de tal forma a tornar tua ação universal” não é suficiente para Hegel, pois não apresenta uma evolução na conciliação entre indivíduo e coletivo. A teoria kantiana também peca quando se torna formal, esquecendo um elemento central à historicidade e o que a orienta: o espírito (geist). A história passa a ser a forma como a compreendemos, re- presentando o desenvolvimento mesmo da mente, do espírito, da consciência. O racional é real e o real é racional. Por isso, Hegel escreve uma obra intitulada Fenomenologia do espírito, em que a questão central que queremos aqui abordar – a ideia de reconhe- cimento – aparece em um dos seus capítulos, “A verdade da cer- teza de si mesmo”, em que encontramos a conhecida referência a “dialética do Senhor e do Escravo”. O problema central da obra é o conhecimento. Como conhecemos a realidade? Passamos por vários níveis de conhecimento, divididos da seguinte forma: 1) experiência sensível (não procura organizar nada, apenas está ciente da presença do aqui e agora); 2) percepção (classifica os 63 de 244