A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 65

O reconhecimento seria suficiente para pensarmos os direitos humanos ? objetos segundo as suas propriedades universais); 3) a consciên- cia-de-si (não existe isoladamente, precisa do contrário, do que não-é, para se diferenciar). Só tomamos consciência de nós mes- mos à medida que temos consciência do que não somos. A consciência de si nasce inicialmente sob a forma de de- sejo. Há uma força que impele a dominar o que é diferente de si, a transformá-lo em algo que é seu, parte de seu mundo e, des- sa forma, afirmar-se como consciência. O problema se encontra quando a consciência-de-si ao fazer este movimento, de trazer o que é externo para dentro de si, retira do outro a sua capacidade de ser outro, ou seja, este outro deixa de ser contrário ao Eu que o percebe e passa a fazer parte do universo deste Eu. De início a consciência-de-si é ser-para-si simples, igual si mesma mediante o excluir de si todo o outro. Para ela, sua essência e objeto absoluto é o Eu; e nessa imediatez ou nesse ser de seu ser-para-si é [um] singular. O que é o Outro para ela, está como objeto inessen- cial, marcado com o sinal do negativo. Mas o outro é também uma consciência-de-si; um indivíduo se confrontou com outro indivíduo. (Hegel, 2007, p. 144-145). A consciência-de-si, portanto, ao dominar o Outro, vive seu momento trágico: ao trazê-lo para si, este Outro desfaz sua pró- pria outridade, o que justamente o faz ser Outro. Em uma relação de vida e morte, de buscar viver através da negação do outro, este Eu perde justamente o que possibilita ser o que é: a existência do Outro. Nem sempre a relação com o Outro é feita de reconhecimen- to mútuo, pacífico, é permeada também pelo combate, pela vio- lência. Nesta relação de vida e morte teremos a possibilidade de morte efetiva tanto do Eu como do Outro. Mas de que me adianta a morte dos vencidos, aquele que venceu dominará a quem? De que serve o poder se não há alguém sob qual exercê-lo? Assim, Hegel apresenta vários momentos desta relação, que culmina na constatação de que precisamos da consciência do Outro para termos consciência de nós mesmos. É preciso que o Outro exista e uma “existência” sob o domínio do senhor conti- 64 de 244