A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Página 63

O reconhecimento seria suficiente para pensarmos os direitos humanos ? ção extrema, a da partilha das terras, não será jamais realizada em Atenas. Contudo, não se deve cair numa visão idealizada das coisas: a democracia é o perigo permanente da guerra civil. Some-se a isso que as mulheres se acham excluídas da vida comunitária, mais que antes: o status da mulher parece, na epopeia homérica ou na poesia arcaica, mais favorável que na Atenas democrática. A maior virtu- de de uma mulher, diz Péricles, é saber se calar. Numa civilização da palavra, obviamente, isso não é lá muito gratificante. Algumas palavras, enfim, sobre a escravidão: quando fazemos esse grande progresso que consiste em dizer que só é na verdade homem quem participa dos assuntos comuns, o cidadão livre (em consequência, os persas ou os egípcios, sejam quais forem suas imensas qualida- des, não são na verdade homens no espírito grego; só é na verdade homem o habitante da Grécia, ainda que do mais remoto dos rin- cões, onde prevalece o sistema das cidades), estabelece-se, ao mesmo tempo, que aqueles que são excluídos não são na verdade homens. (Vernant, 2001, p. 5). A evolução da consciência e, portanto, da Razão histórica se configura no exercício da reflexão crítica. Por isso, para Hegel, Sócrates representou este momento. Contudo, ao ser condenado a morte mostrou que a Grécia ainda não havia alcançado a sua liberdade. Sujeitos e dependentes dos Oráculos, os gregos ainda necessitavam evoluir em sua consciência, por isso o trabalho in- cessante de “conhecer-se a si mesmo”, num constante cuidado de si e, ao mesmo, do coletivo. O mundo Romano necessitou da força para ser unido. A for- mação de diferentes escolas filosóficas naquele tempo como o Epi- curismo e o Estoicismo demonstraram o quanto os romanos sen- tiam-se desamparados diante de um poder opressor. Era preciso então, superar este momento. Para Hegel, o Cristianismo trouxe um diferente alento, pois pregou uma moral baseada no amor. Contudo, o Catolicismo se viu corroído internamente à medida que se afasta de seus prin cípios, através da prática da venda de indulgências. A Contrarreforma, em contrapartida, foi o “clarão da alvorada”, permitindo a revisão dos princípios religiosos. Na mesma linha, a Revolução Francesa trouxe aspectos importantes para a história da humanidade; no entanto, fracassou, ao instau- 62 de 244