A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 62

O reconhecimento seria suficiente para pensarmos os direitos humanos ? É partir de reflexões como esta que podemos compreender como o pensamento de Hegel foi capaz de provocar leituras tão diferentes. Ao mesmo tempo, servindo de fundamentação para a teoria do reconhecimento, encontramos em trechos como esse a afirmação do que Anibal Quijano (2005) chama de racismo epistêmico. A leitura da história, esforço que até hoje buscamos realizar, possui muitos sujeitos de enunciação, mas sua narrativa oficial se dá desde a voz dos vencidos. Vencer a história é cons- tatar que o exercício da liberdade, definitivamente, não é para todos; que a totalidade do sistema hegeliano exclui outras possi- bilidades de totalidades (Mignolo, 2010). Hegel começa, então, a “sua” narrativa com a leitura de uma parte da história do Oriente (China, Índia, Império Persa). Per- cebe que o homem não é livre, vive sob o julgo de um soberano que impossibilita a busca de uma consciência individual. Não podemos, em Hegel, separar consciência individual e coletiva, pois a busca de liberdade se dá justamente, dentro desta relação que deve ser dialética para que a história alcance seu verdadei- ro sentido. Quando um desses elementos se sobrepõe ao outro, vivemos um atraso histórico, pois estamos entre a violência in- dividual e a violência das massas. É preciso conciliar liberdade subjetiva (governar a si mesmo de acordo com suas convicções) e liberdade objetiva (instituições racionalmente organizadas). A Grécia, embora represente um povo evoluído, tornando- -se o berço da Filosofia, ainda não possui a compreensão de indi- víduo, permitindo a escravidão. A democracia e filosofia grega só se fizeram possíveis graças à escravidão, que permitiu que alguns vivessem a liberdade de pensar e agir, em detrimento de outros. A democracia participativa tornou-se um espaço de poucos, em que 90% da população grega não faziam parte deste sistema. A este respeito comenta Vernant: A democracia, de uma certa maneira, é a utilização de um sistema por alguns, os mais numerosos e menos favorecidos, para obter van- tagens daqueles que os gregos chamam os melhores, os mais ricos. Na prática, encontramos mesmo assim um equilíbrio: a reivindica- 61 de 244