A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 31
Religião e tecnociência a partir de um texto de Jacques Derrida
respeito), e não se imporá ou difundirá além do Ocidente sem
dificuldade: o “fim da história” como realização última de uma
humanidade tendo enfim encontrado sua forma acabada no ho-
mem “democrático-capitalista-tecnocientífico”; esse fim da his-
tória não parece se impor sobre o planeta Terra como o acredita-
va Francis Fukuyama na virada dos anos 1990 (Fukuyama, 1992).
Fragilidade, de um certo ponto de vista, da democracia, do
capitalismo, das ciências e das técnicas dos quais não é mais evi-
dente que seu progresso seja inelutável, ou ainda que sua com-
plexificação inovante crescente seja progresso no sentido moral
e político. Se as sociedades ocidentais repousam de diversas ma-
neiras sobre este tripé, elas se descobrem frágeis e o “retorno do
religioso” em seu seio teve parte com esta fragilidade.
Mas é a religião puramente e simplesmente o outro da mo-
dernidade, essa modernidade que se desdobra em certa racionali-
dade em que as ciências e as técnicas figuram em bom lugar? Re-
ligião e “tecnociência” são elas contraditórias e tais que o impulso
de uma significa necessariamente o enfraquecimento da outra?
São elas forças antagonistas não podendo se desdobrar cada uma
senão como o d esaparecimento da outra?
A coisa mesma aqui considerada não exige ela de nós que
nos decidíssemos a renunciar à simplicidade de um tal face a face
entre protagonistas que se pretende identificar todavia nos limi-
tes claros e distintos, sem contaminação (“a religião”, “a tecno-
ciência”)? O que não saberia certo servir de pretexto à confusão:
não se trata em nada de transigir sobre a radicalidade e o corte
que implica uma realidade que para ser complexa, ou mesmo
ambígua, não é nem indeterminada nem confusa. 1
Escrutar as relações entre religião e tecnociência, isso será
também escrutar as relações entre vivente e mecânica, e ainda
1 Escrevendo este texto, escrutando, com Derrida, a complexidade da maneira como
a destruição habita o coração da vida, após a afirmação mesma da vida, proibindo
toda partilha simples entre a vida e o que a destrói, toda partilha simples entre des-
truição e preservação no comando mesmo da preservação da vida, eu tinha bem
certo “sempre em mente” (eu conservo de propósito esta expressão vaga) os atenta-
dos que abateram o coração de Paris em janeiro de 2015, como ele toca o coração, no
mais íntimo, sempre, por toda a parte no mundo.
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