A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 32
Religião e tecnociência a partir de um texto de Jacques Derrida
entre vida e morte, ao menos se se lhe segue a abordagem derri-
diana que nós nos propomos restituir e interrogar em seguida a
partir de um texto preciso: Fé e Saber. As duas fontes da religião
nos limites da simples razão (Derrida; Vattimo, 1996, p. 9-86).
Este texto de Derrida – difícil – esconde desde seu título
três referências alusivas. Uma ao texto de Hegel, Fé e Saber; outra
ao texto de Kant, A religião nos limites da simples razão, e enfim,
de maneira evidente, ao Duas fontes da moral e da religião.
Eu proponho aqui privilegiar o fio por onde, à maneira de
Bergson, Derrida destaca as dualidades de fontes, mas, à diferen-
ça de Bergson, delas destaca mais de uma. 2
O propósito de Derrida sobre a religião é muito complicado.
A interpretação com a qual ele vem em direção a este fenômeno
é a seguinte:
No coração da Religião, há a fé. E a fé provém nas descrições
de Derrida, em sua raiz, em sua proto-forma se se pode dizer,
de um “sim” originário, um consentimento inaugural, ou ainda
de um engajamento que diz “sim”, sem pedir garantia ou prova.
Este “crer” se redobra, segundo Derrida, em um “creia-me”, um
“creia-me porque eu acreditei”, todo incalculável, incontrolável,
sem garantia de que o crer que ele redobra – não se crê se não
há garantia e o crente é já testemunha de sua fé, naquilo em que
seu testemunho não pode se garantir em nada mais que em sua
pura performance. 3 Eu não desenvolvo aqui todas as implicações
2 Tomar consciência do fundo bergsoniano constituído por Duas fontes da moral e da
religião, isso seria também guardar na memória a distância que separa, no seio de
uma proximidade todavia reivindicada, a maneira como Bergson inscreve a consi-
deração da morte – pelo viés de uma retomada filosófica do princípio de entropia
– no coração do elã vital (sempre finito), mas sobre o fundo de um ato criador abso-
luto e inquebrantável, da maneira como Derrida complexifica estas relações entre a
morte e a vida, a morte e o vivo, na lógica da auto-imunidade – uma lógica mais in-
quietante sem dúvida, menos optimista se se pode dizer, se bem que ela não se deixa
em nada acabar num pessimismo radical. Sobre as relações entre estes dois textos,
respectivamente de Bergson e de Derrida, poder-se-á se reportar com proveito a
Vries (2004, p. 255-260).
3 Pensa-se em São Paulo: “pois a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus” (1
Cor. 3,19). O engajamento na fé, já redobrado ou continuado por seu testemunho (o
testemunho de fé), faz voltar a sabedoria do mundo, a construção de sentido e do
razoável, em particular na argumentação e na prova manifesta que, de um certo
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