A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 30
Religião e tecnociência a partir de um texto de Jacques Derrida
RELIGIÃO E TECNOCIÊNCIA A PARTIR DE UM
TEXTO DE JACQUES DERRIDA
François-David Sebbah*
A questão parecia resolvida: a modernidade se inaugurou
como trabalho da razão, a razão libertadora e fornecedora de fe-
licidade para indivíduos enfim saídos da minoridade, pensando
por eles mesmos, e capazes de ultrapassar os limites de seus egoís-
mos respectivos na universalidade da Razão. “Razão racional” (a
razão como motor das ciências e das técnicas) e “razão razoável”
(a razão como faculdade da sabedoria, busca de harmonia e de
felicidade para o maior número) eram o inverso e o lugar de uma
mesma realidade, não podiam deixar de se acompanhar uma da
outra. Nessas condições, as práticas religiosas pareciam ser 1) o
outro da modernidade e 2) entregues a um declínio inelutável,
compelidas ao fim. Elas não podiam ter esperança de achar um
lugar senão renunciando a organizar a vida pública, senão sob a
condição de se curvar sobre o “sentido da vida” e ainda nos estri-
tos limites da “vida privada” do indivíduo.
Assim poder-se-ia resumir, numa generalidade certamente
caricatural, mas sem falsidade, a representação dominante que
a modernidade no Ocidente tende, ou antes, tendia, a produzir
dela mesma. Inútil sublinhá-lo, este cenário entrou em crise (as-
sinalando-o, nós não emitimos nenhuma avaliação que lhe diga
* Tradução do francês por Ozanan Vicente Carrara.
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