A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 29
Os direitos, o homem, os direitos do outro homem
ética, para utilizar a bela palavra que Levinas opõe, de fato, a
toda tentação de articulação dialética entre duas instâncias tão
distintas quanto duas línguas estrangeiras. A relação impossí-
vel entre ética e política, entre utopia do humano e comunidade,
pode se deixar descrever como um desvio, uma desancoragem,
uma diferença interminável, tanto como uma tradução, quanto
como a realização mesma de direitos.
Que significa aqui este impossível (o contra-exemplo de
Heidegger ilustra o possível, muito possível de uma desastrosa
transição da metafísica à metapolítica)? Em primeiro lugar que a
“relação” emerge dessa impossibilidade mesma, impossibilidade
se fazendo relação de qualquer tipo. Em seguida, e sobretudo,
que a dita “relação” não se regra sob a ordem de uma represen-
tação. A “inspiração” a faz escapar tanto à colocação em presen-
ça de um objeto por um ato do espírito quanto à sua delegação
ou à sua transferência de uma cena, o duo ético e o face a face,
a outra cena, a política dos direitos, a multiplicidade inomeável
dos outros homens. Nem trânsito, nem dialética, nem passagem.
Suspense definitivo no provisório.
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