A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 234
Um regime de homens cínicos
ca externa, a marca do protecionismo. Não é preciso ser marxista
para saber que não há nada mais equivocado que dissociar indi-
víduo e sociedade. Construtora de consciências e corpos, a vida
política não influencia apenas a vida do indivíduo; em muitos
aspectos, ela literalmente o molda. Valores como humildade e
autoestima, obediência e competitividade são distribuídos desi-
gualmente. Nada mais grosseiro que tratar entidades empresa-
riais como pessoas, ainda que jurídicas. Quem deveria ser su-
jeito de direitos são os interessados em proteger a empresa, não
a empresa em si; não tem sentido em trata-la como sujeito de
direito. Seres cuja morte não seja previsível estão em vantagem
em comparação com aqueles cujo fim é certo. O fato é que a
imortalidade das empresas as configurou, no capitalismo, como
os novos deuses aos quais devemos obedecer. A pessoa deveria
ser objeto de proteção das democracias e os governos estendem
essa proteção a ideias. Não há sentido em dizer que uma marca
deve ser protegida; no máximo, que sejam protegidos os cria-
dores. Os outros seres vivos e a biosfera, tão frágeis quanto nós,
são muitas vezes alijados da esfera de qualquer direito, ao passo
que entidades abstratas como empresas e corporações não são.
Os governos mesmos respondem como pessoa jurídica. Agora
ele se coloca contrariamente aos interesses mais legítimos. Como
se fala de bioética, é a hora de se falar de uma ecodemocracia. Es-
sas distorções mostram que no iluminismo, nas democracias, e
mesmo no socialismo e no existencialismo, há dois valores sendo
colocados: num, o ser humano é definido como uma essência,
ou, se preferir, a partir de uma essência; no outro, define-se o
ser humano pelo que faz. No primeiro humanismo, basta que o
indivíduo seja um ser humano, ou, se preferir, numa perspectiva
ecológica, que o indivíduo seja senciente, passível de sentir dor,
para que a ele seja dada garantia de direitos; ao passo que, no
segundo humanismo, os direitos só valem desde que se esteja em
dia com as obrigações: o trabalho, o serviço militar, a paternida-
de, a formação educacional estão entre as obrigações que garan-
tem ao indivíduo o título de cidadão. A indecisão de Robespierre
que ora condena a pena capital por considera-la um instrumento
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