A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 233

Um regime de homens cínicos Como o filósofo Emmanuel Levinas acentua em seu artigo Quel- ques réfléxions sur la philosophie de l’hitlérisme, as democracias liberais cometem o erro de desconsiderar a representação do cor- po. A fome de quem implora, o descanso daquele que trabalhou, seja durante um dia ou ao longo de uma vida, não podem ser tratados como artigos de luxo. O mais forte é sem dúvida o que mais sofre, quem sobrevive às intempéries. O corpo não se opõe à liberdade, antes, é seu vetor. Não haveria liberdade alguma sem ele. Como desdobramento do cartesianismo, o corpo será en- tendido pelos liberais como propriedade da alma, usofruto dado por Deus ao homem. Se a vida era um direito, o que justificaria no liberalismo e no iluminismo a má distribuição de direitos, tornando admissível o enriquecimento conjunto com a miséria? Retomemos o existencialismo, uma consequência das mais inte- ressantes do iluminismo. No existencialismo sartreano, o homem não possui uma essência e nem uma natureza, mas uma liberdade que coordena, dirige e define o que o homem mesmo é; aliás, quando Sartre chama o existencialismo de otimista, ele não poderia estar mais de acordo com o ideário do iluminismo e a sua visão de progres- so. Não há como discordar de Sartre que o existencialismo é um humanismo, o problema é a qual humanismo o existencialismo se refere. O existencialismo exagera, como o liberalismo, na di- mensão do indivíduo como o grande responsável por tudo que acontece no mundo. Será fazendo uso exatamente desse argu- mento que grupos conservadores hoje no Brasil condenam pro- gramas de redistribuição de renda: afirmam que os programas não passam de uma distribuição de privilégios e que cada um deve ser responsável pelo que faz, sem que haja a necessidade da tutela de ninguém, do protecionismo de nenhum estado. Cha- mariam as ações afirmativas de vitimismo. Trata-se de um discurso comercializado, por exemplo, pela indústria norte-americana. O problema é que o estado, em seu modelo democrático-liberal, sempre se justificou em defesa de classes, grupos e interesses. O mesmo país que encampa a defesa do neoliberalismo nunca deixou de ter, em sua política econômi- 232 de 244