A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 235
Um regime de homens cínicos
desumano e ora a aplica para garantir a revolução, deixa clara, já
no interior da primeira república ocidental, essa confusão. Inde-
cisão cuja solução Robespierre não tinha como encontrar nos li-
vros. Uma dubiedade que explica por que as democracias tratam
as empresas como pessoas e os indígenas, não. Por ser um ser
humano, devem ser garantidos direitos, mas o valor de cada um
está no que faz. Sua vida deve ser protegida, mas o que fizer será
julgado, e nesse julgamento, deve ser garantido o direito à vida
colocando a do condenado em risco.
Cada um assume nas sociedades liberais o papel de Cristo.
Quando condenados, somos condenados a preservar os direitos
dos demais. Sartre não podia ser mais cristão quando diz que
cada escolha feita pelo homem é por toda humanidade. O ilu-
minismo sempre transitou não importando se mais à direita ou
à esquerda entre as duas versões. Tanto o marxismo quanto o
liberalismo chamam a atenção para o trabalho, da mesma for-
ma que o existencialismo conclama a liberdade do homem como
fundamento de nossas ações sem se aperceber o quanto trata
objetivamente da liberdade como um atributo. O que então se
observa é uma dialética que ora identifica, ora opõe ser e fazer. A
ideia de o homem ser dotado de uma natureza a ser protegida em
associação à ideia de que essa proteção é da responsabilidade de
todos viabilizou o modelo das democracias dos últimos séculos.
O perverso agora acontece quando se dissocia o ser e o fazer.
O homem quando é avaliado apenas no que ele é, será definido
muito provavelmente não por ser simplesmente um ser humano,
mas por pertencer a um grupo. A concepção de ser humano é por
demais abrangente, se comparada com outras formas de grupa-
mento e segregação. A razão de nós sermos seres humanos ainda
não nos convence de que, independentemente dos nossos dotes,
das nossas origens, das nossas crenças e dos nossos desejos, todos
nós somos, por definição, quer dizer, em sua essência, iguais e a
todos deve ser dada garantia dos mesmos direitos. Nada mais
abstrato do que a ideia de ser humano. Que somos humanos, mas,
daí, que todos sejamos donatários de direitos, é uma associação
nada simples. Uma forma de os humanos se verem irmanados é
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