A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 182
A singularidade e os direitos humanos na sociedade democrática
Afastar da realidade dos objetos suas qualidades sensíveis é elimi-
nar, ao mesmo tempo, nossa sensibilidade, o conjunto de nossas im-
pressões, emoções, desejos e paixões, pensamentos, em suma, toda
nossa subjetividade, que constitui a substância de nossa vida. É essa
vida, portanto, tal como se experimenta em nós em sua fenomena-
lidade incontestável, essa vida que faz de nós seres vivos, que se vê
despojada de toda verdadeira realidade, reduzida a uma aparência.
O beijo que trocam os amantes não passa de um bombardeio de par-
tículas microfísicas. (Henry, 2012, p. 15).
Na esteira do nosso pensador observamos que a moderni-
dade deixou-se influenciar pelo pensamento galileano. Em ou-
tras palavras, o fundamento da modernidade foi dado pela teo-
ria galileana. Henry prova essa tese ao evidenciar, e conforme
afirmamos anteriormente, a decomposição da última sociedade
religiosa do ocidente. Mas para Henry, não se trata de descrever
essa decomposição em si mesma, mas sim, mostrar como ela se
apresenta na sociedade pós-religiosa. O conjunto de práticas re-
ligiosas, assim como os ritos, os sacrifícios, doravante eram vi-
vidos por cada vivente, assim como tantas outras formas que lhe
permitiam experimentar sua relação com o absoluto, atualizá-lo
e, deste modo, conformar-se com ele.
A religião era uma ética e, por isso, impregnava uma prática
social completa, porém essa práxis social que era muito bem ir-
rigada pelo sagrado acabou caindo em uma exterioridade mons-
truosa. Como foi possível essa mudança? Com a chegada do novo
saber que entra e começa a vigorar: primeiramente, exclui a vida
subjetiva e tão logo que a vida subjetiva foi afastada o novo saber
anuncia também os rumos que o mundo irá trilhar. Os compor-
tamentos religiosos a partir de então se apresentam vazios de sua
substância e aparecem como artimanhas extravagantes. Diante
disso, Henry pergunta-se: “a quem vão os gestos de adoração já
que não há nada que adorar?” (2014, p. 418). As instituições re-
ligiosas se revelam agora sob o aspecto de fenômenos objetivos.
Outra pergunta pertinente que faz nosso autor é no senti-
do de que, se esse universo religioso era o que regia a atividade
social e fundava a totalidade de valores, onde encontrar agora
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