A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 181
A singularidade e os direitos humanos na sociedade democrática
nião invariável dos indivíduos, aos pontos de vista particulares,
mais ainda, é da esfera das sensações, dos pensamentos pessoais,
etc., mas se o mundo dá-se a nós em aparições sensíveis (cor, sa-
bor, odor, etc.) variáveis e contingentes, por que razão a ciência
galileana faz abstração das qualidades sensíveis e, de maneira
geral, de tudo o que é tributário à subjetividade para só reter,
como verdadeiramente, as formas abstratas do universo espaço-
-temporal? Para Michel Henry,
A ilusão de Galileu, como a de todos aqueles que, depois, conside-
ram a ciência dele, um saber absoluto, foi justamente a de ter tomado
o mundo matemático e geométrico, destinado a fornecer um conhe-
cimento unívoco do mundo real, por esse mesmo mundo real, esse
mundo que só podemos intuir e experimentar nos modos concretos
de nossa vida subjetiva. (Henry, 2012, p. 30).
Logo que as ideias de Galileu tomaram conta da Europa in-
telectual não somente revolucionaram o plano teórico de se tor-
narem a ciência por excelência, mas estruturaram o nosso mun-
do, tornando-o modernidade. A partir de então, é estabelecido
o conhecimento “geométrico-matemático do universo material
como princípio de organização das sociedades modernas para
lhes conferir um rosto totalmente diferente do das sociedades
tradicionais” (Henry, 2012, p. 14).
Para Henry, a decisão galileana acaba reduzindo o mundo
dos homens ao mundo da ciência, ou seja, é uma decisão intelec-
tual em primeiro lugar, formulada com clareza, cujo conteúdo é
perfeitamente inteligível; em segundo lugar, busca compreender
fundamentando-se no conhecimento geométrico-matemático,
um universo doravante reduzido a um conjunto objetivo de fe-
nômenos materiais e, mais do que isso, a decisão de construir e
organizar o mundo baseando-se de maneira exclusiva sobre esse
novo saber e sobre os processos inertes que permitem dominá-lo.
A vida não é mais interrogada nos laboratórios, mas sim, estuda-
da por processos materiais cegos, homogêneos, os quais são ob-
jetos da física. Ao levarmos em consideração a redução galileana,
havemos de perceber que,
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