A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 143

Sartre, democracia e liberdade sociais: sempre há aquele que destoa, sempre há a exceção que confirma a regra; ou seria melhor dito, sempre há a liberdade que desafia a regra? A democracia é, nesse sentido, menos opressora da liberdade que a ditadura; mas ela, tal qual se passa nos regi- mes totalitários, não faz muito melhor: “a democracia é uma mis- tificação” (Sartre apud Jeanson, 1974, p. 257). Ela leva o homem a acreditar que é livre e que delega poderes aos políticos e esses, por sua vez, cumprem aquilo que foi delegado. Mas não é assim: trata-se de liberdades e, nesse sentido, a maioria dos homens – os cidadãos – cede (ou são privados de) sua liberdade sob a alegação de delegação de poder (fundada no Direito, outra invenção hu- mana). O que se tem de fato é a usurpação de várias liberdades por uma liberdade (política) que decidirá livremente aquilo que melhor lhe aprouver. Neste sentido “O sufrágio universal é uma instituição e, enquanto tal, um coletivo que atomiza e serializa os homens concretos e se endereça a eles como entidades abstratas, o cidadão, definido por um conjunto de direitos políticos, isto é, por sua relação com o Estado e suas instituições “ (Sartre apud Jeanson, 1974, p. 257). Na democracia, o cidadão, o homem-no- -mundo, adquire o direito de votar; ou melhor, na democracia lhe é concedido esse direito, afinal, como os homens não são liberda- des (iguais), mas portadores de direitos (diferentes), mantem-se uma igualdade abstrata para diferenças concretas; e na mesma medida, desconsidera-se a igualdade concreta (todos os homens são livres) em virtude de uma condição abstrata do Direito. No entanto, essa inversão não passa despercebida a Sartre: ele jamais votou. Fala-se muito do fato de Sartre não ter lutado pela libera- ção da França, de não ter se filiado a nenhum partido (sobretudo o comunista) e, por fim, de mudar de opinião ao longo de sua trajetória intelectual. O liberal sabe que Sartre andou flertando com o marxismo, o marxista sabe que Sartre exigiu a liberdade no Estado socialista; o psicólogo sabe que Sartre é crítico de todo determinismo psíquico ou psicofísico, o sociólogo sabe que Sar- tre afirma o indivíduo livre apesar das amarras sociais. E todo re- ligioso sabe muito bem que Sartre é um perigo, que questiona ao mesmo tempo a submissão dos fiéis como a submissão dos líderes 142 de 244