A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 142
Sartre, democracia e liberdade
a escolha original (modo particular e livre do homem assumir a
continência de ser). Aquilo que esse homem escolher será, ora
em diante, seu modelo de ser homem no mundo: além de fazer-se,
enquanto é em situação, ele desenha no mundo o modelo do que
deve ser o homem (essa é a maneira muito particular que cada
para-si elege para realizar o impossível ser-em-si-para-si).
Sartre funda a sua filosofia da liberdade ontologicamen-
te; mas porque sua ontologia é fenomenológica, ela está ligada
diretamente ao mundo prático, é o homem-no-mundo que sua
filosofia descreve. Assim, todos os projetos humanos igualam-se
enquanto possibilidade de fazer-se no mundo, fazendo o mundo.
O intelectual engajado marxista não tem o direito de dizer aos
demais homens o que é melhor para eles; a psicologia perde a sua
prerrogativa, respeitada socialmente, de decidir entre o normal e
o patológico, e indicar o que é o homem são. As ciências sociais,
por sua vez, são irremediavelmente lançadas ao meio dos ho-
mens, aqueles que até então foram objetos sociais: a filosofia da li-
berdade prevê que a liberdade mesma pode se legislar, os homens
se igualam. Todo pretenso líder religioso, que fala em nome de
Deus aquilo que ele escolhe, terá no homem livre e sem Deus um
igual a si mesmo, de onde não haja necessidade de sacerdotes. A
sociedade se estrutura no poder institucional exercido por alguns
homens sobre outros, ou seja, a liberdade social restringe-se a
dizer sim ou não: decorre daí que o homem concreto se divide
em tipos, e a cada um deles é destinado seu lugar na organização
social. A ciência da alma decidirá o que é normal e o que é pato-
lógico, a ciência social explicará o homem situado e a filosofia (ou
religião) cuidará de fundar um modelo de homem a ser repetido
pelos demais. É mais ou menos assim que Sartre pode hoje ser
considerado extemporâneo, liberal, bolchevique e mesmo bur-
guês (no sentido marxista) ou jornalista. Porém, a liberdade, en-
quanto acontecimento absoluto e assunção da situação na escolha
original de cada homem, resiste e desafia todas as pretensas tota-
lizações (realizações do ser-em-si-para-si) humanas, de esquerda
e de direita. A liberdade insiste naquilo que hoje se pode chamar
de não adaptação em todos os níveis, estratos, nichos ou castas
141 de 244