A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 141

Sartre, democracia e liberdade culos acostumou-se a medir-se pelo resultado de sua empreitada e, por ter obtido relativo sucesso, fez da liberdade de conhecer um meio distintivo e dominador de outros homens. É claro que o fato de Sartre mostrar que o homem não tem essência senão existindo, abre a guarda para críticas menores, como aquela que ele teria somente invertido termos metafísicos; mas a filosofia de Sartre mostra que o homem é livre, e que ele escolhe o seu ser. Em sua ontologia encontram-se descritos os processos pelos quais o homem, livre, faz-se no mundo; em sua Crítica da Razão Dialé- tica, o filósofo leva essa liberdade para o plano social, e mostra os processos pelos quais a liberdade é alienada pela socialização; a sua literatura ilustra magistralmente a condição humana, em personagens livres (ainda que literatura e dramaturgia nada pro- ve); mas Sartre também tem suas provas de que o homem é livre, o que fica evidente nas analíticas existenciais de Mallarmé, de Baudelaire e de Flaubert (ainda que se trate de homens mortos, o que limitaria o alcance do método progressivo-regressivo). En- tretanto, Sartre também analisou a existência de Jean Genet, um homem que foi seu contemporâneo. 10 O homem é liberdade em situação: o homem nasce em um mundo já pronto, de valores já escolhidos por aqueles que o antecederam; isso permite, de fora, dividir a existência humana em fases (infância, adolescência, ju- ventude, etc.). Porém, por dentro, a existência sempre se apre- senta como uma e a mesma. Nota-se a inutilidade de explicar o homem por fases evolutivas e, assim, desconsiderar que enquan- to liberdade ele é sua escolha, ele se totaliza, ele é aquilo que faz. Sartre inaugura termos ontológicos para descrever como fenô- menos humanos livres aquilo que as ciências (da alma e social) mostram como constitutivas do objeto homem (o aparecimento da consciência para si mesma). Ontologicamente, o para-si ar- ranca-se do ser: é o acontecimento absoluto (a consciência aparece a si mesma como uma existência que engloba o passado e insiste em projetar-se no futuro); as relações dessa existência com sua situação, que inicia o movimento existencial de cada homem, é 10 Pela ordem, Sartre 1986; 1963; 1971; 1952-2002. 140 de 244