A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 144
Sartre, democracia e liberdade
religiosos a dogmas que lhes são os mais convenientes, livremente
escolhidos (ou inventados) por eles. Sartre deverá constar no in-
dex de livros proibidos. O princípio da filosofia de Sartre alcança
tal poder revolucionário que cabe combate-lo sem descanso. De
outro modo, aquele pedestal de onde o filósofo fala seria destruí-
do: o homem seria livre. A mesma desconfiança parece mover as
ciências psíquicas, que preferem criar estruturas imaginárias e
mirabolantes para explicar o funcionamento da alma do homem
em sociedade (seja subjetividade, razão, psique, alma, eu, sujeito,
etc.); ou das ciências sociais, que preferem acreditar em forças
desumanas (mão invisível do mercado, dialética da natureza,
ideologia, etc.) que conduziriam o homem em seu ser social. É
nesse horizonte que a democracia inverte prioridades, ao colocar
a igualdade – a despeito da liberdade – como seu princípio; é as-
sim que se tem o sufrágio universal que, segundo Sartre “é feito
para separar os trabalhadores, quebrar a solidariedade de classe”
(apud Jeanson, 1974, p. 257). Enquanto liberdade, cada homem
pode se unir a outros e, juntos, inventar o modelo de homem e de
mundo. Porém, nos Estados democráticos, a liberdade se resume
ao ato de votar, ela não tem nenhum efeito: a democracia repre-
sentativa emudece milhões de liberdades no que tange ao modelo
de homem no mundo, cabendo a algumas centenas decidir por
todos. Isso não causa estranheza: o Estado Democrático é o mes-
mo que cria, sustenta e mantém as ciências da alma, as ciências
do homem e a filosofia; mais do que isso, em uma associação
macabra, Estado e Religião dividem os espólios de um povo: pa-
ralelamente aos impostos e obrigações exigidos pela organização
estatal caberá ao líder religioso retirar o que sobrar das possibi-
lidades humanas. Esse quadro, que se resume na mistificação da
liberdade sobre o nome de Democracia e liberdade religiosa, pode
ser apontado como a maior armadilha à qual o homem é subme-
tido no acontecimento absoluto – seu aparecimento num mundo.
A democracia transforma cada homem, cada situação, cada
história em uma vontade abstrata; e, enquanto abstração, essa
vontade pode ser manipulada. Claro que, para que isso se efetive,
é preciso que a sociedade (história, pedagogia, economia, sociolo-
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