A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Seite 129

Sartre, democracia e liberdade para si e para os demais, vítima e carrasco, pois ele assume como sua responsabilidade aquilo que não dependerá de sua escolha. E, a bem ver, ainda é assim que se passa nas democracias repre- sentativas contemporâneas: o voto é um cheque em branco que o eleitor assina; mas a decisão de quando, como, porque e em que esse valor será aplicado fica na posse absoluta de alguns homens (os políticos) que falam em nome de instituições e, assim, opri- mem a liberdade pela liberdade mesma, o voto. De início as informações políticas que se tem sobre Sartre são contraditórias: trata-se de um filósofo da liberdade, então, no existencialismo sem Deus, tudo é permitido; mas trata-se tam- bém de um filósofo que responsabiliza o homem por seu ser, o que indicaria que mesmo no existencialismo, nem tudo permitido é conveniente. Parece que Sartre retoma o modelo cristão cunha- do por São Paulo e que matiza toda a má-fé religiosa: a armadi- lha cristã que propõe uma liberdade vigiada, cerceada por tantas obrigações que encheram os volumes da Lei judaica e, hoje, enche as existências de culpa e medo pelo simples fato de existir. 1 Entre- tanto, Sartre está longe disso: sua filosofia é filosofia da liberdade situada. Ela não faz prescrições, pois a [...] condição exigida para nadificação do nada, a liberdade não é uma propriedade que pertença entre outras coisas à essência do ser humano. Por outro lado, já sublinhamos que a relação entre exis- tência e essência não é igual no homem e nas coisas do mundo. A liberdade humana precede a essência do homem e torna-a possível: a essência do ser humano acha-se em suspenso na liberdade. Logo, aquilo que chamamos liberdade não pode se diferenciar do ser da ‘realidade humana’. O homem não é primeiro para ser livre depois: não há diferença entre o ser do homem e seu ‘ser-livre’. (SARTRE, 2011, p. 68). Trata-se de um princípio ontológico. Porém, a ontologia, conforme teria mostrado Kant em sua crítica, não é mais que uma dentre tantos empreendimentos metafísicos sem fundamen- 1 “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço” (BÍBLIA, 1993, Rm 7, 19). 128 de 244