A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 128
Sartre, democracia e liberdade
A certos olhares, as ideias de Sartre, e mais especialmente, suas ideias
políticas, parecem mais velhas hoje que o pensamento de um Aristó-
teles. Olhadas como ‘datadas’, como anacrônicas, elas se tornam ino-
fensivas. Mas de outro lado, quando fazemos o esforço de lê-las como
proposições suscetíveis de concernir com nosso tempo, de concernir
a nós mesmos, elas tomam o ar de proposta chocante, escandalosa,
insustentável. Em uma palavra, parece que, na conjuntura ideológica
atual, Sartre não pode aparecer senão sob uma de suas duas formas:
seja como um clássico arcaico que não interessa mais que a historia-
dores da filosofia, seja como um pensador escandaloso, uma ‘persona
non grata’ (infréquentable). (Kowalska, 2005, p. 415).
Não se trata em absoluto de defender Sartre; isso lhe pro-
vocaria náuseas. O objetivo desse capítulo será trazer Sartre ao
debate contemporâneo, tarefa absolutamente legítima do ponto
de vista da liberdade: fenomenologicamente, não é outra coisa
que esse trazer intencional que faz Aristóteles parecer mais con-
temporâneo aos olhos de alguns do que Sartre. Trata-se de uma
escolha, de uma eleição: elege-se Sartre para modelo de filoso-
fia social idealista ou romântica, do mesmo modo que se elege
Aristóteles como modelo de questionamento de nossa estrutura
social (nosso mundo). Não se trata de uma escolha inocente, é
claro, mas de uma escolha de modelos de homem e de mundo;
voltar a Aristóteles permite escalonar os tipos de homem e sua
pertinência política, enquanto dar voz a Sartre exige partir do
princípio universal que ser homem é ser liberdade situada. E isso
muda muito: a ética torna-se necessária (ser homem é ser ético)
e impossível (ela jamais estará pronta, exige ser feita e refeita por
todo o tempo que existir homem). Os modelos reconhecidos pela
academia (análise psíquica ou social) explicam esses fenômenos
a partir de estruturas internas ou forças externas, para Sartre am-
bos processos de má-fé: a filosofia da liberdade propõe adentrar
o nebuloso campo da escolha original (analítica existencial); o
homem é vítima de sua condição psíquica (ciência da alma) tanto
quanto é vítima da ilusão de clarificar o a-priori da correlação: é
vítima porque escolhe. O mesmo se passa com as ciências sociais:
na democracia, o homem que vota torna-se ao mesmo tempo,
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