A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 127
Sartre, democracia e liberdade
SARTRE, DEMOCRACIA E LIBERDADE
Luciano Donizetti da Silva
O homem nasceu livre, e em toda parte se encontra sob ferros.
De tal modo acredita-se o senhor dos outros que não deixa de ser
mais escravo do que eles. Como é feita essa mudança? Ignoro-o.
Que é que a torna legítima? Creio poder responder essa questão.
Rousseau
O pensamento de Sartre é, em sua designação maior, filoso-
fia da liberdade. E em que se pese o fato de que ele jamais aderiu
a qualquer partido político e que jamais votou nos pleitos demo-
cráticos franceses, o filósofo não é um democrata, e não há iden-
tificação entre sua noção de liberdade e as experiências históricas
da democracia. Para Sartre ela não fez melhor que a ditadura mi-
litar-burocrático-socialista pela causa da liberdade; a liberdade
tem, sim, no fascismo seu pior panorama possível, mas também
não foi melhor no sistema socialista e não é, em absoluto, nas
democracias capitalistas. Capitalismo e Socialismo, com suas no-
ções diametralmente opostas no tocante à propriedade e à eco-
nomia, são equivalentes em princípio, pois ambos propõem uma
norma a partir da qual será instituído o Direito; noutros termos,
repetem em lados opostos o mesmo cerceamento e o controle da
liberdade. Mas esse é um debate ultrapassado, pode-se pensar –
forjado nos anos 1960 – e, uma vez mudado o mundo, também
a filosofia dessa época perde a sua importância; ou, como bem o
resume Malgorzata Kowalska,
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