A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 130
Sartre, democracia e liberdade
to; 2 e seu resultado não será outro que o dogmatismo. Ademais,
Sartre teria partido de uma condição idealizada de homem, o ho-
mem livre, e isso já seria suficiente para não ser levado a sério;
some-se a isso o debate entre a Academia, em especial marxis-
ta, e Sartre, e tem-se a mais desdenhosa caricatura desse filósofo
burguês e idealista; ou, por fim, aplica-se a Sartre o princípio da
determinação social, e o filósofo torna-se um machista na sua re-
lação inusitada com Beauvoir (e outras mulheres), além de uma
espécie de traité no plano político: ele muda de opinião, ele é fa-
vorável ao capitalismo, sua liberdade nada mais faz que reeditar o
liberalismo, etc. E as críticas não param por aí: são tantas quanto
o desconhecimento da filosofia da liberdade (e interesses deter-
ministas) puder(em) inventar.
Nesse sentido, esse capítulo tem uma estrutura simples e
pontual: de início será preciso esclarecer alguns pontos da liber-
dade sartreana, confrontando-a com aquilo que se pensa (fala-se
ou ensina-se) que seja essa liberdade; feito isso será o momento
de mostrá-la em situação, e daí, indicar o quanto a filosofia de
Sartre, quando levada à história, pode ser questionadora ainda
em nosso tempo. Isso permitirá mostrar que sua filosofia não é de
esquerda nem de direita, nem é democrata nem contra a demo-
cracia. Sua indagação filosófica está em outro nível, aquele que
não apenas antecede os modelos de organização social no mun-
do, mas que os inventa e os sustenta em seu ser, a liberdade mes-
ma. Espera-se, assim, mostrar que a filosofia de Sartre não ficou
no passado (prerrogativa assumida desde já, senão não haveria
razão para escrever esse capítulo); mais do que isso, ela tem, sim,
muito a contribuir com nosso estágio atual mundano-concreto.
É nesse sentido que tanto capitalismo, fascismo e comunismo são,
2 “Ser não é, evidentemente, um predicado real, isto é, um conceito de algo que possa
acrescentar-se ao conceito de uma coisa; é apenas a posição de uma coisa ou de
certas determinações em si mesmas. [...] E assim o real nada mais contém que o
simplesmente possível. Cem táleres reais não contêm mais do que cem táleres pos-
síveis. Pois se os táleres possíveis significam o conceito e os táleres reais o objeto e a
sua posição em si mesma, se este contivesse mais do que aquele, o meu conceito não
exprimiria o objeto inteiro e não seria, portanto, o seu conceito adequado” (Kant,
2001, p. 504-505).
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