A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 117

Aportes para pensar a democraciaa partir de Jonas e Levinas anônima de um universo sem linguagem. Levinas liga a palavra ao falante já que ela consiste num falar a alguém, ela supõe um interlocutor em carne e osso que se apresenta em sua singulari- dade. O Rosto é a presença de um ser a si que não se define pelas semelhanças que possua com relação aos muitos outros. É a lin- guagem que revela o que ele tem de mais peculiar. Nesse sentido, a palavra própria se apresenta como um vigia contra os abusos do estado, dado seu poder de ruptura com a totalidade. Dentro da totalidade, o outro não é um interlocutor a quem a palavra se dirige, mas um destinatário da propaganda (Levinas, 1991, p. 44) que lhe retira a liberdade de ter também sua própria palavra uma vez que não há reciprocidade. Os terceiros, que formam a socie- dade anônima e impessoal, apagam a verdade primeira do Rosto, a transcendência que rompe com o espírito de sistema (Levinas, 1991, p. 44). A palavra do Rosto por isso mesmo é um comando moral – “não matarás!” – que coloca em relação duas liberdades que afirmam a identidade dos interlocutores, um comando de identidade a identidade. Essa relação dual tão característica da ética se dá fora da totalidade e da história já que a identidade do eu não vem delas. Mesmo que a economia opere uma totalização dos seres inicialmente separados, fundindo-os e abrindo a pos- sibilidade da compra e venda das liberdades na transação eco- nômica, ela tem uma natureza ambígua. Ao mesmo tempo que permite a alienação, ela abre também a possibilidade do dissenso em que se pode recusar a alienação do universalizante, opondo- -se à totalidade do estado, da economia e da técnica. Levinas introduz a noção de proximidade para expor a so- cialidade originária do face a face que não é uma noção espacial, não tem sua fonte na consciência intencional e assim não per- tence à ordem do pensamento e da razão e, ao mesmo tempo, é a fonte de toda significação. É ela que permite pensar uma sociali- dade como Outro no Mesmo. Ela abre a possibilidade de pensar uma comunidade de diferentes cujas diferenças não são apagadas na universalização operada pelo conceito uma vez que conceito também é já distância, ruptura com a proximidade. Eis o que se pode visualizar como um diálogo de interlocutor a interlocutor, 116 de 244