A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 118

Aportes para pensar a democraciaa partir de Jonas e Levinas uma aceitação do outro ou do diferente, exigência fundamental colocada às democracias contemporâneas que se constroem num ambiente quase totalmente plural. Além disso, uma autêntica democracia se constrói a partir do reconhecimento do direito à opinião, à crítica, à divergência. Nada é definitivo e tudo pode ser sempre revisto. As estruturas societárias devem preservar a comunicação entre os interlocu- tores e o confronto de opiniões. Não há democracia quando não existem condições de discussão pública ou quando as possibili- dades de diálogo são obstruídas. A concepção de democracia que surge em nosso filósofo não é uma concepção meramente espiri- tual como se vê na ideia de nação. Nesse aspecto, Levinas critica a ideia de pátria entendida como enraizamento a um lugar. A relação do sujeito ético com o político não é uma relação não crítica como se pode ver em Hegel já que nosso autor rejeita a ideia hegeliana de síntese e ainda o fato de a histórica encobrir a existência. Uma subjetividade ética se opõe ao objetivismo da guerra e abandona qualquer noção de ser como esforço de ex- pansão no mundo. Não é uma oposição dialética a que melhor descreve as relações humanas, mas o face a face que é irredutível à totalidade. O Rosto, sendo um comando moral, resiste à to- talização e se manifesta como transcendência absoluta fora de qualquer correlação. A relação ética não exige reciprocidade e simetria, pois ambas a conduziriam à totalização. A questão da liberdade Um terceiro elemento central que nos aponta para um pen- samento da democracia em nosso autor é a liberdade. Esta, tal como é pensada pelo liberalismo, acaba por fundar uma sociali- dade num acordo livre de vontades e todas essas vontades se fun- dam na perseverança no ser, caindo inevitavelmente na luta de uns contra os outros ou numa socialidade fundada na violência. 117 de 244