A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 116

Aportes para pensar a democraciaa partir de Jonas e Levinas retira dele pela senescência. Ser-no-mundo soa ao nosso autor ainda como uma atitude natural e a ética, ao contrário, supõe um “dar do meu mundo ao outro” (Levinas, 1988, p. 229). Em outras circunstâncias, ele se mostra otimista quanto à tecnologia desde que ela seja revertida para a justiça e a paz numa saída do mundo que é a única possibilidade de perceber o Rosto ou o humano em todo o seu esplendor. Se a tecnologia desmistificar o mundo, ela pode ajudar a libertar o homem do espaço que o prende à ima- nência do mundo, impedindo a transcendência. O perigo que ele visualiza é a conjunção de técnica e ideologia quando ela serve à objetivação e à universalização que perdem a singularidade. O contratualismo moderno, por sua vez, também se fun- da sobre esse eu natural egoísta, individualista e autossuficiente, sendo o papel da sociedade o de administrar os impulsos vio- lentos naturais desse eu. A lógica do Estado se funda nesse in- dividualismo do ser. Levinas abre uma possibilidade de pensar o inverso da modernidade: a alteridade funda um novo modo de ser pessoa, de fundar a sociedade e a cultura para além de um contrato. Sociedade e Estado nascem na relação ética dual do face a face que deve continuamente interromper a política cuja possibilidade os terceiros (termo levinasiano para designar os muitos outros do outro, isto é, a pluralidade social que é a políti- ca) abrem com sua tendência própria à sincronização, à univer- salização e assim à destruição da singularidade do eu e do outro, colocando-os num sistema. A palavra própria Ainda um outro texto de Levinas, também publicado em Difficile Liberté, nos dá uma outra dimensão a partir da qual po- demos pensar a democracia. O filósofo nele examina a perda da palavra própria no regime stalinista. A palavra aí se tornou sin- toma das superestruturas que permitem perceber a neutralidade 115 de 244