A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 115

Aportes para pensar a democraciaa partir de Jonas e Levinas dade aí se acusa como sendo assassina e destruidora de outrem. Por isso, a humanidade vem do outro que se apresenta no Ros- to, sobretudo aquela que se apresenta no pobre e no estrangeiro que impõem ao eu a saída de sua “´perseverança no ser” para se ocupar das necessidades do outro em sua vulnerabilidade. Vale aqui a advertência de Levinas de não se deixar enganar ingenua- mente pela moral e de atentar para seu aspecto ideológico. Além do Estado moderno com sua inclinação inevitável à homogenei- dade, a ciência e a técnica modernas refletem a mesma tendên- cia. Levinas vê no movimento operário, tão bem examinado e assumido pelo marxismo, uma denúncia desse estado que é des- crito como guerra de todos contra todos e lê o individualismo como fechamento na autossuficiência do si mesmo. A alteridade do trabalhador aí se anuncia como interrupção ética no seio de uma economia negadora das exigências da alteridade. Se há uma revolução em Levinas, ela é um acontecimento escatológico que suspende a essência e o ser. Os critérios máximos da economia e do mercado devem ser o cuidado do outro e de suas demandas. Encontramos também, em Levinas, uma abordagem positi- va da técnica. Num outro texto bem menos importante de 1961, publicado em Difficile Liberté, comentando o primeiro russo a ir ao espaço, o filósofo aponta para um aspecto central da técnica – o de que ela permite um desenraizamento do solo – opondo-se evidentemente ao apego heideggeriano ao solo e ao enraizamen- to num solo, traços que ele vê como sendo marcas do paganismo rural. Espaço para nosso filósofo é puro arranjo social. É a téc- nica que melhor permite ao homem distinguir-se da natureza, organizando-se na sociedade industrial já que a humanidade do homem consiste num distanciamento em relação à natureza. A técnica liberta do enraizamento ao solo, abrindo a possibilidade de perceber o homem fora de um contexto ou fora de um mun- do de tal modo que o Rosto possa brilhar em sua nudez. Lugar ou espaço não são condições originais da experiência humana. É nesse sentido que ele louva Gagarin pelo simbolismo que sua peripécia permitiu ao visualizar um homem fora do lugar. O ho- mem não se identifica plena e totalmente com o mundo, mas se 114 de 244