A Capitolina 11, novembro 2014 | Page 20

"Toda pessoa deveria ser aplaudida de pé pelo menos uma vez na vida, porque todos nós vencemos o mundo.”

Extraordinário faz jus ao seu nome, afinal, é um livro que aborda uma questão complicada de um jeito leve e encantador. Este é um dos livros que com certeza lerei com meus futuros alunos, quando me tornar professora!

O livro conta a história de August Pullman (mais conhecido como Auggie), um menino que nasceu com uma síndrome genética que deixou seu rosto deformado (ou seria melhor dizer “diferente”?). De início, o livro é narrado pelo próprio Auggie. Assim, somos introduzidos ao seu mundo e também criamos o desenho do seu rosto, a partir das descrições feitas pelo menino. Auggie está prestes a encarar um grande desafio: frequentar a escola pela primeira vez. O garoto entra para o quinto ano, muito receoso em relação à nova experiência. No entanto, o diretor do Ensino Fundamental II, Sr. Buzanfa (sim, esse é o nome dele!) é muito gentil! Ele convoca três alunos para mostrar a escola ao Auggie. Dentre estes estão Jack e Julian, o segundo tem um caráter duvidoso e, posteriormente, causará certas coisas ruins ao nosso protagonista.

Dessa forma, vamos acompanhando o dia-a-dia do Auggie, vendo o quanto é difícil ser ele e também refletindo sobre o quão corajoso o garoto é. A autora explora muito bem a questão do bullying, o livro passa uma mensagem brilhante sobre esse problema que atinge muitas crianças, adolescentes e até mesmo adultos. Sentimo-nos na pele do Auggie e isso faz toda a diferença. O que você faria se tivesse o rosto deformado? Como você seria internamente? Como enfrentaria o preconceito, os olhares, os não-olhares etc? O que você faria se alguém que você gostasse fosse como o Auggie?

Outro aspecto extremamente positivo é que o livro é alternado de acordo com diferentes pontos de vista. Temos um capítulo narrado pela Olivia (irmã mais velha do Auggie), personagem de que gostei muito; outro narrado pelo melhor amigo do garoto e por aí vai. Através da alternância de capítulos, podemos ver Auggie sob diferentes olhares. Logo percebemos o quanto o menino é divertido, inteligente, compreensivo... extraordinário. A propósito, considerando que a edição deste mês de A Capitolina corresponde à “literatura de fluxo de consciência” é interessante mencionar que o capítulo pensado narrado por Justin (o namorado de Olivia) é um belo exemplo das características desse tipo de literatura. R. J. Palácio adota um estilo diferente no capítulo em questão. Aliás, uma das técnicas utilizadas para representar o fluxo de consciência é a não utilização de letras maiúsculas no texto. O leitor sente que essa parte do livro é singular, pois podemos perceber o modo introspectivo da narração de Justin.

Auggie enfrenta muitos problemas na escola e na família, porém, tais obstáculos fazem com que ele cresça enquanto pessoa e ensine um bocado de lições para seus amigos e familiares, bem como para nós leitores.

Menção honrosa para o Sr. Browne, o professor de inglês do Auggie, que todo mês passa um preceito aos alunos (trata-se de alguma citação de autores célebres, cujo conteúdo aborda algum princípio de vida). Acredito que isso é bem interessante, pois permite que os discentes reflitam sobre suas atitudes. Aliás, R. J. Palacio acabou de lançar o livro 365 Dias Extraordinários - o Livro de Preceitos do Sr. Browne.

Uma curiosidade: o Auggie é descendente de brasileiros.

Recomendo esse livro a todos, pois a história é bonita e nos faz refletir sobre o preconceito não apenas em relação à alteridade, mas a nós mesmos também. A aparência realmente não vale muito, o que mais importa é o que você tem por dentro. Não adianta ser (já diziam nossos avós) “por fora bela viola e por dentro, pão bolorento”. As pessoas são muito mais que aparência exterior. Nós não podemos escolher nossos genes, mas podemos escolher nosso caráter.

Temos de parar de julgar o livro pela capa e as pessoas pelo rosto. Além disso, é muito importante ter empatia e respeitar a todos.

Um ponto bem frisado no livro foi a "gentileza"! Como disse o Sr. Buzanfa, se todas as pessoas fossem mais gentis que o necessário, o mundo seria um lugar bem melhor! Vamos exercer a gentileza, pessoal!

Esse livro é realmente Extraordinário.

"Agora, pensando bem, não sei por que fiquei tão estressado com isso. É engraçado como às vezes nos preocupamos muito com uma coisa e ela acaba não sendo nem um pouco importante."

Extraordinário

Thaís Tiemi Yamasaki