A Capitolina 11, novembro 2014 | Seite 19

estavam atrás de você?", perguntou uma voz. E outra respondeu: "Que diabo, este lugar é nosso!"

Havia dez crianças ali, a seu redor.".

Os subornos, fianças pagas quando foi preso algumas vezes para interrogatório, os presentinhos enviados aos oficiais, a alimentação adquirida no mercado negro a fim de matar a fome de seus empregados judeus, os inúmeros documentos que teriam que ser despachados de forma ilegal, bem como várias outras 'arbitrariedades aos olhos nazistas' custaram uma fortuna para os bolsos de Oskar Schindler durante os anos de conflito, e ao final da guerra, ele já não contava com a posição de industrial milionário que possuía. Mas em momento algum ele se arrependeu de gastar cada centavo de seu dinheiro para salvar vidas. Os pouco mais de mil judeus que tiveram seu nome na Lista de Schindler [como ficou conhecido o documento com os nomes dos funcionários que sobreviveram ao holocausto porque o industrial pagou para mantê-los vivos] foram eternamente gratos aquele homem de semblante pacífico, 'bon-vivant', que possuía muitas mulheres apesar de casado, mas que nunca desamparou nenhum dos seus, que quase foi descoberto por 'trair a raça ariana' ao tratar como humanos os judeus, e que teve que suportar a maldade nazista sem demonstrar revolta com o que via.

Oskar Schindler foi uma das pessoas mais memoráveis que tive o privilégio de saber sobre, um homem que apostou alto demais, perdeu tudo o que tinha mas ganhou a gratidão de mil judeus.

"aquele que salva a vida de um homem salva a vida do mundo inteiro".

Mas o livro não é apenas Schindler. O livro fala da vida interrompida de milhares de judeus, que perderam suas identidades e não passavam de carcaças esfomeadas marcadas com uma tatuagem numerada no antebraço. Eram apenas números, vidas insignificantes aos olhos nazistas, e deveriam ser aniquiladas para 'o bem da Alemanha nazista'. Itzhak Stern, A sra. Pfeffeberg, Hanukkah, Danka, Genia, Menasha Levartov, entre tantos outros, viveram anos de medo, dor de perder seus parentes, fome, frio, humilhações e privações por parte da nação alemã. Se escaparam, foi por sorte de encontrar pessoas como Oskar, que se arriscavam por eles.

Infelizmente, para a maioria dos judeus, não houve misericórdia, e suas vidas foram ceifadas com tiros na nuca, bombas, pela fome a ponto de deixar o corpo em pele e ossos, por cercas eletrificadas que os 'livravam' do sofrimento, por espancamentos, doses de veneno ministradas por médicos que preferiam privar-lhes de uma morte violenta e grotesca, pelos 'chuveiros' da morte que deixavam escapar gás letal ao invés de água, pelo sufocamento de um vagão superlotado sem ventilação rumo aos campos que diziam que 'o trabalho liberta'. Inúmeros judeus que viraram apenas números estatísticos e que se perderam em valas e fornos crematórios. E, exceção à parte, alguns poucos que tiveram seus nomes conhecidos por situações específicas, ou por causa de objetos que contaram suas histórias...

A Lista de Schindler é uma obra dolorida, um relato de milhões de cotidianos interrompidos pela crueldade e ambições dos que se achavam superiores...

HENEALLY, Thomas. 'A Lista de Schindler'. Best Bolso. 2007. 532 páginas.