A Capitolina 11, novembro 2014 | Page 14

quando eu escrevo

David França Mendes

A primeira coisa que eu tenho vontade de falar sobre o processo de escrever é que escrever, propriamente, é a parte fácil, e a que toma menos tempo.

Escrever, isto é, colocar uma palavra depois da outra, para mim, é um trabalho que acontece num tempo espremido entre outros dois tempos que são maiores, e bem mais complicados, que o da escrita.

O primeiro desses tempos é o do desenvolvimento da ideia. A maioria das pessoas que não escrevem, ou que escrevem de uma forma muito amadora, nem imagina que esse momento existe, ou acha que se trata de um momento pontual, vagamente mágico. “Ter a ideia”, algo como inspiração, sorte.

Não é de nada disso que eu estou falando. Na minha experiência, não existe esse “ter a ideia”, ou existe mas é irrelevante. Ok, posso ter uma ideia como “um homem descobre que seu filho não é seu”. Certo, isso é uma ideia. Mas, e daí? essa ideia só serve para alguma coisa depois que eu tiver inúmeras outras ideias. Quem é esse homem e esse filho, em que ambiente vivem, quem está em torno deles, de quem o filho é filho, afinal?

E ainda aí, quando se tem as respostas para tantas dessas perguntas, falta articular. Falta ver as peças se encaixando. Falta um projeto artístico: de que jeito eu vou contar isso? esse jeito de contar tem a ver com o que eu conto? e para quem lê, vai funcionar como?

Existe muito trabalho antes de escrever frases. E quando falo trabalho, é trabalho mesmo, anotando, pesquisando, fazendo listas, buscando coisas concretas onde se apoiar. Não estou falando de andar pela rua com um headphone nas orelhas esperando as soluções cairem do céu. Esse trabalho é pesado, o de buscar as tais respostas, e gera algum tipo de plano, de mapeamento do que virá a ser escrito.

Eu faço esse plano. E aí, eu escrevo.

Depois, vem o segundo daqueles tempos de que falei lá no início. O tempo de reescrever, que é de outra natureza, e é ainda mais importante que os dois anteriores. Sua primeira demanda já é difícílima: você é capaz de ler o que escreveu, como se outra pessoa o tivesse escrito? isto é, você é capaz de um olhar exterior ao que produziu, como se aquilo não fosse seu, para encontrar os defeitos, as falhas, os erros?

Não se trata de mera revisão, no sentido de uma revisão ortográfica (e tem essa também!). Trata-se de um pensamento sobre todos os aspectos do que foi escrito. Isso que está aqui, que eu escrevi, cumpre o que planejei? fui numa direção diferente do esperado? Se fui, esse novo caminho é melhor ou pior do que aquela ideia que eu mapeei?

Pronto, identifiquei os problemas. Acabou essa fase? Não. Porque agora é preciso planejar de novo, quase que num retorno ao tempo inicial. Tenho que fazer o planejamento da reescrita. Como vou resolver os problemas que encontrei? isso é trabalho concreto, de novo. Sempre é.

Escrever, para mim, é todo esse processo em três tempos.