A Capitolina 11, novembro 2014 | Page 13

concretizado com o traumático: se não for incômodo. Pior que isso eram os tapinhas nas costas e as últimas palavras gritadas enquanto ele subia as escadas de volta para o apartamento acima do meu.

Em pouco tempo as batidas de pé começaram a fazer parte do repertório.

Toda a noite.

Eu acompanhava, atormentado, aqueles sons graves e abafados por entre os cômodos. Não demorou para que ele começasse a gritar também, e daí a colocar música alta foi um pulo.

Tinha vontade de reclamar-lhe; na verdade, queria dizer-lhe uns bons impropérios quando ele tocava a campainha em busca de novos pedidos. Mas assim que abria a porta seu sorriso era tão cordial, e sua voz tão envolvente, que eu esquecia do mal que ele me causava.

O cavalheiro à porta nem parecia o monstro que morava no apartamento de cima.

Foi por causa da minha impotência em enfrentar-lhe com palavras que comecei a arquitetar o plano.

Na penúltima vez que o vi, sorri-lhe com vontade, sabendo que logo eu teria minha rotina restabelecida.

Um cabo de vassoura era o bastante. Não qualquer cabo – um de madeira maciça, pesado. A forma de usá-lo, ou seja, a intensidade das batidas, teria de descobrir no próprio momento, analisando seu efeito com os sentidos da visão, da audição e do... tato.

A campainha toca.

Acho que precisei de cinco minutos, não tenho certeza... O silêncio estava restabelecido.

Um mês depois, ele veio se despedir de mim. Até pediu desculpas.

Para o chão quebrado, arranjei um tapete velho que estava guardado no fundo de um armário.

Nota do autor:

Adaptei o miniconto para roteiro de curta-metragem.

Você pode acessá-lo clicando aqui!