concretizado com o traumático: se não for incômodo. Pior que isso eram os tapinhas nas costas e as últimas palavras gritadas enquanto ele subia as escadas de volta para o apartamento acima do meu.
Em pouco tempo as batidas de pé começaram a fazer parte do repertório.
Toda a noite.
Eu acompanhava, atormentado, aqueles sons graves e abafados por entre os cômodos. Não demorou para que ele começasse a gritar também, e daí a colocar música alta foi um pulo.
Tinha vontade de reclamar-lhe; na verdade, queria dizer-lhe uns bons impropérios quando ele tocava a campainha em busca de novos pedidos. Mas assim que abria a porta seu sorriso era tão cordial, e sua voz tão envolvente, que eu esquecia do mal que ele me causava.
O cavalheiro à porta nem parecia o monstro que morava no apartamento de cima.
Foi por causa da minha impotência em enfrentar-lhe com palavras que comecei a arquitetar o plano.
Na penúltima vez que o vi, sorri-lhe com vontade, sabendo que logo eu teria minha rotina restabelecida.
Um cabo de vassoura era o bastante. Não qualquer cabo – um de madeira maciça, pesado. A forma de usá-lo, ou seja, a intensidade das batidas, teria de descobrir no próprio momento, analisando seu efeito com os sentidos da visão, da audição e do... tato.
A campainha toca.
Acho que precisei de cinco minutos, não tenho certeza... O silêncio estava restabelecido.
Um mês depois, ele veio se despedir de mim. Até pediu desculpas.
Para o chão quebrado, arranjei um tapete velho que estava guardado no fundo de um armário.