100 anos da Revolução Russa PD_ESPECIAL | Página 93

fez-me um balanço da situação. Ele criticava o que chamou de grande equívoco de Gorbachëv na condução do país: entregar o comando da economia aos engenheiros que dirigiam os gran- des combinados industriais. “Eles cortaram 10% das importações de bens de consumo e compraram máquinas e equipamentos que vão ficar por aí enfer- rujando”, disparou. Segundo ele, a reforma deveria começar pelas privatizações de serviços e manufaturas, além da liberação da pequena produção mercantil e do comércio em geral para os empreendedores familiares, e pela abertura da economia para a entrada das montadoras de automóveis e fábricas de eletroeletrô- nicos das multinacionais, como a China acabou fazendo depois. A “aceleração”, como Gorbachëv batizara inicialmente a sua reforma econômica, estava sendo um fracasso. De imediato, pensei na polêmica do Bukharin com Stálin. O líder russo, assassinado nos processos de Moscou, defendia um modelo de “acumulação socialista”, que se baseava na produção capitalista no campo e no barateamento da produção da indústria ligeira para formação da poupança necessária ao financiamento da industrialização pesada. Diante da necessidade de armar o país para enfrentar a guerra iminente com a Alemanha, porém, Stálin deu um basta a isso, com as "coletivizações forçadas" no campo, que expropriou a pequena burguesia rural. O movimento stakhanovista era uma espécie de trabalho compulsório, mascarado de emulação socia- lista. Também rasgou a Constituição de 1935, que transformaria a URSS num Estado de direito socialista. Bukharin foi proces- sado e fuzilado como traidor, depois de obrigado a assinar a própria confissão, em meio à onda de assassinatos do grande expurgo promovido pelos chamados “Processos de Moscou”. A ascensão de Stálin se deu sobre os cadáveres de milhares de quadros bolcheviques. Começou após a morte de Sverdlov, vítima de tifo, quando Lenin perdeu o principal organizador do partido bolchevique, que foi substituído por uma comissão na qual Stálin despontaria. Mas a liderança absoluta viria mesmo após a morte de Lenin, com o assassinato de Kírov, o secretário do comitê de Leningrado, que era o mais popular dos bolcheviques. O crime, mais tarde atribuído ao próprio Stálin, deu início à onda de expur- gos que consolidaria o poder do ditador soviético. Eles eram justos e puros 91