Voltemos, porém, à crise do modelo soviético. No verão russo de 1982, durante o Congresso do Konsomol, no Kremlin, Leonid Brejnev quase caiu ao discursar. O velho líder soviético já estava meio gagá, mas gozava de uma conjuntura econômica favorável: havia abundância de frutas tropicais nas ruas de Moscou e as lojas do GUM( Glavny Universalny Magazin), na Praça Vermelha, estavam abarrotadas de produtos importados, dos perfumes franceses aos sapatos italianos. A URSS faturava com a elevação do preço do petróleo e do gás.
Na crise do petróleo, que a liderança soviética erroneamente interpretou como uma nova crise geral do capitalismo, Brejnev havia lançado a consigna“ Estado de todo o povo, rumo ao comunismo”. Os americanos haviam sido derrotados no Vietnã e foram corridos do Irã; os comunistas estavam no poder nas colônias portuguesas. A América Latina fervia com a revolução sandinista na Nicarágua e a ofensiva guerrilheira dos comunistas em El Salvador. Até que a invasão do Líbano por Israel mostrou que o outro lado ainda era capaz de arreganhar os dentes.
Vinte anos depois, porém, a conta do atraso havia chegado. O velho problema detectado por Bukharin, e que fora atalhado por Stálin, estava estrangulando a economia soviética: a produção do campo não era suficiente para alimentar o povo e a indústria de bens de consumo padecia de baixa produtividade e péssima qualidade. Enquanto isso, o mundo capitalista ingressara na terceira revolução industrial, com o toyotismo, os sistemas de produção flexíveis, os novos materiais e supercondutores, a microeletrônica e a telemática. Os grandes combinados russos, engessados pelos planos quinquenais, já tinham ficado para trás.
Nas ruas de Moscou, as“ bichas”( filas) se formavam do nada. O sujeito chegava com uma sacola e entrava na fila, esperava alguém mais chegar e pedia para guardar o seu lugar. Só então verificava o que estava sendo vendido. Se achasse que era algo que iria faltar, comprava o que os rubros permitissem e ele conseguisse carregar, para estocar ou fazer câmbio negro. O povo aproveitava para falar mal do Gorbachëv e dos comunistas. O abastecimento se tornara completamente caótico.
92 Luiz Carlos Azedo