100 anos da Revolução Russa PD_ESPECIAL | Page 54

grandes planos de investimento científico e tecnológico: apenas como parte da divisão internacional do trabalho parece que isso será promovido, os cientistas do terceiro mundo são baratos. Cada vez mais, tudo está atrelado ao sistema internacional, sem alternativas. Certos continentes levam a pior. Os processos inflacionários facilitam reduções salariais, o Estado não assume responsabilidade pelos desempregados, necessidades básicas da população continuarão sem serem atendidas. Os descendentes de imigrantes europeus não podem esperar investimentos para ajudá-los, pois o que importa às empresas não é a solidariedade: pela qualificação da mão de obra pode haver até uma substituição nas elites governantes e uma nova mentalidade de trabalho e de responsabilidade com o meio ambiente. A burguesia tem dois caminhos clássicos para maximizar a taxa de lucros: 1) reduzir os custos de produção e aumentar os preços dos produtos, o que tende a ser feito através da diminuição dos salários reais e ser facilitado pela inflação; 2) aumentar a produtividade do trabalho e o salário, ampliando o poder de compra. É esta a diferença entre partidos de direita e de esquerda no capitalismo, entre linha dura e progressista, entre capitalismo selvagem e economia social de mercado. O primeiro caminho está hoje reservado ao terceiro mundo, enquanto o segundo prepondera no primeiro mundo. Para se desenvolver, o capitalismo não só precisa de uma fase de acumulação primitiva, um vale-tudo na exploração da mão de obra para a formação do grande capital, mas só pode percorrer o segundo caminho fazendo com que o primeiro prepondere noutras partes do planeta. O primeiro mundo é rico porque o terceiro mundo é pobre; ele se diz democrático, mas se apoia em ditaduras. Europa e Estados Unidos são ricos não só pela exploração secular de outros continentes, pelo baixo preço pago aos produtos naturais e à mão de obra, mas porque milhões de operários trabalharam muito nas metrópoles. Quando é que essa tensão vai se transformar em ódio racial e religioso? Do lado europeu, o que mais existe é desprezo e distância, e isso não vem de hoje.
O dr. Altenberg temia um renascimento do racismo e das guerras religiosas, já que para ele a luta de classes havia se transformado em luta entre povos-patrões e povos-proletários. Resolveu concluir:
– Até há pouco tempo, os países atrasados, piedosamente chamados de países em desenvolvimento, tinham no comunismo uma alternativa à exploração que sofriam. Eu não sei o que vai acontecer com o socialismo europeu, só sei que a produção não vai tão bem quanto
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