À beira do precipício pd51 | Page 183

ções preencheram as lacunas deixadas por nossa herança biológica (p. 141). Depois ele afirma que tais ordens imaginadas nunca foram neutras nem justas e que “todas as distinções mencionadas aqui – entre homens livres e escravos, brancos e negros, ricos e pobres – se baseiam em ficções”. E continua: A Revolução Agrícola certamente aumentou o total de alimen- tos à disposição da humanidade, mas os alimentos extras não se traduziram em uma dieta melhor ou em mais lazer. Em vez disso, se traduziram em explosões populacionais e elites favo- recidas. Em média, um agricultor trabalhava mais que um caçador-coletor e obtinha em troca uma dieta pior. A Revolução Agrícola foi a maior fraude da história. Quem foi responsável? Nem reis, nem padres, nem mercadores. Os culpados foram um punhado de espécies vegetais, entre as quais o trigo, o arroz e a batata. As plantas domesticaram o homo sapiens, e não o contrário (p. 89-90). Vejamos o que diz F. Engels a respeito desta Revolução: O desenvolvimento de todos os ramos da produção – criação de gado, agricultura, ofícios manuais domésticos – tornou a força de trabalho do homem capaz de produzir mais do que o neces- sário para sua manutenção. Ao mesmo tempo, aumentou a soma de trabalho diário correspondente a cada membro da gens, da comunidade doméstica ou da família isolada. Passou a ser conveniente conseguir mais força de trabalho, o que se logrou através da guerra; os prisioneiros foram transformados em escravos (antes, eles eram comidos ou eventualmente incor- porados à tribo). Dadas as condições históricas gerais de então, a primeira grande divisão social do trabalho (entre tribos dedi- cadas ao pastoreio e as outras) ao aumentar a produtividade deste, e por conseguinte a riqueza, e ao estender o campo da atividade produtora, tinha que trazer consigo – necessaria- mente – a escravidão. Da primeira grande divisão social do trabalho, nasceu a primeira grande divisão da sociedade em duas classes: senhores e escravos, exploradores e explorados. (A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Vitó- ria, 1963, p. 128). Aqui Harari, talvez para soar como algo exótico, violenta a história da humanidade, ignora os fenômenos sociais ao atribuir Sapiens – Harari, Marx e Engels 181